Inovação é uma palavra que carrega esperança no novo. Mais do que conceito, é ação: exige movimento para transformar ideias em soluções concretas. Quando o assunto é saúde, esse termo ganha centralidade, associado à descoberta de novos tratamentos – ou à otimização dos já existentes – para diagnósticos e doenças desafiadoras que impactam a população.
Inovar em saúde requer o esforço coordenado de diferentes agentes, entre eles a indústria farmacêutica, o governo e a sociedade. Apesar de saber como funciona essa “equação” e do potencial nacional, o Brasil ainda ocupa uma posição tímida no cenário global. De 2019 a 2024, o número de estudos clínicos iniciados no país cresceu de pouco mais de 300 para cerca de 500, de acordo com a Associação Brasileira das Organizações Representativas de Pesquisa Clínica (Abracro)1. Ainda assim, o país está entre os 20 maiores do mundo, apesar do potencial de subir e alcançar o top 10, segundo a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma)2.
Nesta entrevista, Flavio Devoto, vice-presidente e gerente-geral da AbbVie no Brasil, detalha as barreiras e oportunidades para que o país se torne referência em inovação em saúde. Ele destaca a importância da pesquisa clínica, o papel central da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no processo regulatório e a importância do fortalecimento da indústria para que os frutos da inovação cheguem ao paciente brasileiro. Também ressalta a relevância da colaboração entre farmacêuticas, governo e sociedade, muitas vezes representada por pacientes, associações de pacientes e até sociedades médicas, para o avanço científico.
Estúdio JOTA – O Brasil representa apenas cerca de 2% dos estudos clínicos globais3. O que ainda impede o país de se consolidar como polo atrativo para a pesquisa clínica?
Flavio Devoto – A AbbVie reconhece o enorme potencial do Brasil, especialmente pela diversidade populacional e pelo robusto sistema de saúde. Mas ainda enfrentamos desafios processuais, regulatórios e de infraestrutura, que prolongam prazos de aprovação. Com a regulamentação da Lei de Pesquisa Clínica em Seres Humanos (Lei 14.874/2024), observamos um movimento muito positivo e acreditamos que esses obstáculos serão mitigados, atraindo mais investimento internacional e consolidando o país como centro de excelência em pesquisa clínica.
Mesmo com os desafios atuais, entre 2022 e 2024, a AbbVie ampliou em 50% os estudos globais que incluem o Brasil. Globalmente, temos mais de 90 compostos em desenvolvimento. Em 2025, recebemos seis aprovações de novos produtos ou indicações no Brasil, sempre voltados a responder às necessidades não atendidas em saúde. Nosso objetivo é continuar trabalhando em conjunto com entidades regulatórias e centros de pesquisa para agilizar processos e criar um ambiente mais atrativo à inovação, atendendo demandas em áreas complexas da saúde.
EJ – Quais medidas poderiam tornar o Brasil mais competitivo para o desenvolvimento de terapias inovadoras?
FD – É essencial simplificar e ampliar o acesso dos brasileiros à inovação em saúde, fomentar e amplificar o diálogo sobre esse tema entre os diferentes atores envolvidos e fortalecer o compromisso com pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas. Dados atuais da América Latina mostram que 61% dos medicamentos aprovados internacionalmente têm aprovação regulamentar local em pelo menos um país, mas apenas 35% têm disponibilidade pública total ou parcial. No caso dos tratamentos mais recentes, a disponibilidade é consideravelmente reduzida. Além disso, um novo medicamento pode levar em média 4,75 anos para ter disponibilidade pública, limitada ou completa, após aprovação regulatória nos Estados Unidos (FDA) ou na União Europeia (EMA).
Por isso, a saúde deve ser tratada como investimento estratégico de longo prazo, já que o tratamento inadequado normalmente gera prejuízos econômicos relevantes ao sistema e, claro, compromete a saúde e a qualidade de vida dos pacientes brasileiros. Um exemplo para ilustrar esse cenário pode ser a enxaqueca crônica que, apesar de não ser associada diretamente a mortalidade, teve um impacto equivalente a 1,6% do PIB do país (cerca de US$ 30 bilhões) há três anos.
Na AbbVie, estamos focados em transformar os padrões de cuidado em áreas como imunologia, oncologia, hematologia, oftalmologia, neurociência e estética médica (por meio da Allergan Aesthetics, uma empresa AbbVie). Investimos significativamente em áreas inovadoras como inteligência artificial, medicina de precisão, genética e genômica, que permitem o desenvolvimento de medicamentos transformadores para melhorar a vida dos pacientes.
Buscamos também parcerias estratégicas para superar barreiras de acesso e fomentar a inovação. A colaboração entre governo, indústria e sociedade é fundamental para que os avanços alcancem toda a população e posicionem o Brasil como líder em inovação na saúde.
EJ – Como o senhor avalia hoje o ambiente regulatório brasileiro para pesquisa clínica e incorporação de novas tecnologias?
FD – A implementação da inovação requer diálogo, colaboração e agilidade. O ambiente regulatório brasileiro passa por mudanças importantes e muito positivas, como a Lei de Pesquisa Clínica, que representa um progresso significativo para o desenvolvimento de tecnologias, fortalece o ecossistema de centros de pesquisa e cria condições relevantes para atrair mais estudos para o país. Vejo uma intenção positiva de considerar diferentes perspectivas e responsabilidades, o que é essencial para construir cenários robustos e favoráveis à inovação.
Na AbbVie, acesso é prioridade. Trabalhamos com modelos que reconhecem o valor da inovação e viabilizam o acesso a tratamentos para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e da saúde suplementar. Modelos inovadores de compartilhamento de riscos devem sempre focar na melhoria do cuidado, garantindo que os recursos sejam usados de forma eficiente e que o paciente esteja no centro das decisões. Atualmente, a maioria do nosso portfólio pode ser acessado pelos brasileiros por meio do SUS ou de planos de saúde. Nosso objetivo é que cada vez mais brasileiros consigam ter acesso às nossas tecnologias. Para nós, não existe pesquisa e desenvolvimento sem acesso à tecnologia para o paciente na ponta.
EJ – O que motiva a AbbVie a investir em inovação?
FD – Impulsionar a inovação para transformar a vida dos pacientes é um dos princípios da AbbVie. Estamos entre as cinco maiores biofarmacêuticas globais com foco em pesquisa, portanto, a inovação faz parte do nosso DNA e é o core do nosso negócio.
Entre 2022 e 2024, aumentamos em 50% os estudos globais que incluem o Brasil, voltados ao entendimento de dados de vida real da população ao redor do país. Desde a fundação da companhia, em 2013, investimos globalmente mais de US$ 73 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. Só em 2024, foram US$ 10,8 bilhões no mundo todo. E é motivador observar que esse investimento global em P&D tem colocado, cada vez mais, o Brasil como um potencial foco.
Nossa inovação é impulsionada por um forte compromisso em compreender e responder às necessidades de saúde não atendidas. Focamos no desenvolvimento de terapias transformadoras que têm o potencial de redefinir os padrões de cuidado para os pacientes, trazendo avanços significativos em áreas que, hoje, contam com poucas ou nenhuma opção terapêutica.
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EJ – Como o senhor visualiza o cenário de inovação em farmacêutica e ciências da vida?
FD – A inovação é essencial para enfrentar desafios de saúde, melhorar a qualidade de vida e ampliar o acesso a terapias. Principalmente considerando um país de dimensões continentais como o Brasil, com desafios regulatórios e processuais, é fundamental abrirmos o diálogo sobre inovação e fomentar, cada vez mais, que novas soluções em saúde cheguem mais rapidamente aos pacientes.
É preciso compreender o valor e o impacto da inovação a longo prazo, especialmente diante do envelhecimento populacional e da prevalência crescente de doenças crônicas como diferentes tipos de cânceres, doenças imunomediadas, entre outras. Muitas vezes, a inovação não apenas melhora a qualidade de vida, mas muda o curso de uma doença – e, em alguns casos, leva à cura ou à remissão. Aspectos como qualidade de vida do paciente, produtividade e impacto nos familiares e cuidadores são exemplos que precisam ser considerados nos processos de incorporação de novas tecnologias aos sistemas de saúde, que hoje acabam priorizando custo versus efetividade. Adotar um olhar mais amplo também tem um impacto positivo na saúde financeira dos sistemas de saúde e do país como um todo.
CÓDIGO BR-ABBV-260012
Referências:
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ORGANIZAÇÕES REPRESENTATIVAS DE PESQUISA CLÍNICA (Abracro). Dados sobre estudos clínicos iniciados no Brasil entre 2019 e 2024. Disponível em: https://abracro.org.br/pesquisaclinicanobrasil/. Acesso em: ago. 2025.
- ASSOCIAÇÃO DA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA DE PESQUISA (Interfarma). Panorama e posicionamento do Brasil no cenário global de pesquisa clínica. Disponível em: https://www.interfarma.org.br/wp-content/uploads/2023/08/Pesquisa-clinica-2022 atualizado.pdf. Acesso em: ago. 2025.
- Ministério da Saúde (Brasil) – Divulgados os resultados da consulta pública sobre pesquisa clínica no Brasil (07/10/2025): destaca que o Brasil está entre os 20 países no ranking global de estudos clínicos, mas participa de menos de 2% da pesquisa clínica mundial. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/divulgados-os-resu ltados-da-consulta-publica-sobre-pesquisa-clinica-no-brasil. Acesso em: ago. 2025.
