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JOTA Principal: Governo Lula maneja relação com EUA de Trump em busca de eleições sem sobressaltos

28/01/26

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A conversa entre Lula e Donald Trump é mais um exemplo de como o governo brasileiro busca equilibrar dois temas que considera interligados: a relação com os Estados Unidos e a tranquilidade para as eleições de outubro.

Nas duas primeiras notas desta edição, a analista de internacional Vivian Oswald destrincha a estratégia do presidente brasileiro em temas como Venezuela, o Conselho da Paz e a busca por mais parceiros comerciais.

Enquanto isso, no fronte eleitoral, aliados de Lula e do governador Tarcísio de Freitas mandam recados uns aos outros sobre quem preferem enfrentar nas urnas. Beto Bombig analisa na nota 3.

Nesta edição, também escrevemos sobre uso de inteligência artificial nas eleições, reforma tributária e a regulamentação da cannabis medicinal.

Boa leitura.


1. O ponto central: Vacinas, pt. 1

O governo pretende manter a aposta no que considera estratégias essenciais para garantir estabilidade na relação com os Estados Unidos e preservar a tranquilidade do processo eleitoral, Vivian Oswald escreve no JOTA PRO Poder.

  • A avaliação no Planalto é que os dois temas estão conectados.
  • Desde a posse de Donald Trump, a principal preocupação passou a ser o risco de a nova configuração em Washington interferir no jogo político doméstico.
  • Esse temor se materializou com a carta enviada por Trump em 9 de julho passado, em que vinculou o tarifaço ao processo que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à prisão.

Por que importa: As “vacinas” — iniciativas diplomáticas, econômicas e narrativas — buscam evitar que crises internacionais se transformem em passivos eleitorais.

  • Trata-se de uma tentativa de antecipar atritos antes que se convertam em ruídos capazes de fechar canais de diálogo.
  • O desafio é calibrar o discurso de altivez e defesa da soberania, dos quais o Brasil não pretende abrir mão, sem excessos que provoquem reações abruptas dos Estados Unidos, segundo fontes do governo.

📞 O telefonema de 50 minutos de Lula para Trump nesta semana faz parte da estratégia.

  • Havia ansiedade, do lado brasileiro, para que os dois líderes retomassem o contato direto.
  • A leitura no Planalto é de que, na atual gestão americana, problemas precisam ser equacionados em altíssimo nível — ou os canais se perdem.
  • Avalia-se que não seria prudente desperdiçar a força centrípeta criada na aproximação entre ambos durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro passado.
  • Por isso, ficou acertado que os dois se encontrariam em breve, após a viagem de Lula à Índia e à Coreia do Sul (18–22.fev), ainda que sem data definida.

UMA MENSAGEM DO MATTOS FILHO

Agronegócio ganha alternativa de captação de crédito

O agronegócio brasileiro passou a contar com uma alternativa adicional de captação de crédito por meio da emissão de Cédulas de Produto Rural Financeiras (CPR-F), que passam a ocupar papel central no mercado de capitais.

Características da utilização das CPR-Fs:

  • Ampliação do papel das CPR-Fs: esses títulos de crédito passam a ser utilizados como ativo de referência nas emissões, e não apenas como instrumento de lastro.
  • Tratamento como valor mobiliário: o arcabouço regulatório permite o enquadramento da CPR-F como valor mobiliário, possibilitando acesso direto ao investidor sem a intermediação de securitizadoras.
  • Estrutura mais simples e eficiente: o modelo apresenta menor redução do valor final do crédito quando comparado a outros instrumentos do setor.

Movimento recente do mercado

Emissões bilionárias realizadas no segundo semestre de 2025 por companhias como Klabin e Suzano evidenciam o interesse do mercado pelo instrumento, que, segundo o advogado Raphael Saraiva, sócio do escritório Mattos Filho, deverá seguir ao longo de 2026.


2. Vacinas, pt. 2

O ex-ditador Nicolás Maduro é levado para depor em tribunal de Nova York / Crédito: XNY/Star Max/GC Images – 5.jan.2026

Até ontem (27), Lula já havia mantido conversas telefônicas com chefes de governo de 13 países em pouco mais de 20 dias, além de um encontro no Rio com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

  • As articulações começaram após a ofensiva americana na Venezuela, em 3 de janeiro, que terminou com a captura de Nicolás Maduro, tema recorrente nas conversas, Vivian Oswald prossegue na análise.

Por que importa: O tema ganhou alta sensibilidade na América Latina desde que Trump passou a usá-lo como instrumento de pressão sobre países da região.

  • Na conversa com o presidente americano, Lula retomou a proposta feita a Trump em dezembro, quando se falaram pela última vez, antes da ofensiva americana na Venezuela, de fortalecer a cooperação no combate ao crime organizado.
  • Nesta semana, manifestou interesse não apenas em ampliar a parceria contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas, mas também em discutir congelamento de ativos de grupos criminosos e intercâmbio de dados sobre transações financeiras.

♟️ A estratégia de Lula de buscar respostas coordenadas com outros líderes apareceu no caso da Venezuela, mas também em mais temas sensíveis na relação com os Estados Unidos.

  • Outro episódio que exigiu resposta cuidadosa foi o anúncio do chamado Conselho da Paz, apresentado em Davos como uma espécie de Conselho de Segurança da ONU alternativo — proposta que causou perplexidade em diversas capitais.
  • Sem responder diretamente ao convite para integrar o órgão, Lula demonstrou interesse na ideia, mas sugeriu que sua atuação se restrinja à questão de Gaza e inclua representação palestina.
  • No mesmo movimento, reiterou a defesa de uma reforma ampla da ONU, com ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança — pauta que o Brasil defende há anos e que ganhou força adicional em 2025, durante as presidências brasileiras do G20, do Brics e da COP30.
  • Essa estratégia permite ganhar tempo enquanto se observa a reação de outros líderes.

🥖 Na segunda (26), após quase uma hora de conversa com o presidente francês Emmanuel Macron, o Planalto divulgou nota conjunta em que ambos afirmaram que iniciativas em matéria de paz e segurança devem estar alinhadas aos mandatos do Conselho de Segurança e aos princípios da Carta da ONU.

  • Não foi uma posição isolada de Lula, mas parte de um alinhamento mais amplo.

A diversificação de parceiros comerciais segue a mesma lógica.

  • Daí o empenho pessoal de Lula na conclusão do acordo Mercosul–União Europeia, visto como forma de reduzir a dependência do mercado americano e demonstrar que o Brasil dispõe de alternativas relevantes.
  • Esse será também o tom da visita oficial à Índia, preparada desde o ano passado com a missão precursora do vice-presidente Geraldo Alckmin.
  • A intenção é sinalizar que a relação bilateral mudou de patamar, a exemplo do que ocorreu com China, Japão e outros parceiros.
  • O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, virá ao Brasil em abril com a missão de acelerar um entendimento com o Mercosul.

⏩ Pela frente: Outras frentes de atenção incluem o debate sobre excessos das big techs em ano eleitoral e a agenda dos minerais críticos e terras raras.

  • O Planalto quer transformar esses temas em ativos de negociação.

3. Meu adversário favorito

O governador Tarcísio de Freitas / Crédito: João Valério/Governo de São Paulo

A definição do cargo que Tarcísio de Freitas irá concorrer passa por uma ameaça velada de Lula: se escolher o voo presidencial, o governador poderá acabar sem o Planalto e seu grupo, sem o Bandeirantes, Beto Bombig escreve no JOTA PRO Poder.

  • Estrategistas da campanha petista reconhecem em conversas privadas que Tarcísio seria um obstáculo eleitoral mais difícil de ser transposto pelo presidente rumo ao quarto mandato.
  • Mas, se Lula teme Tarcísio, o atual governador de São Paulo teme Geraldo Alckmin e até Simone Tebet quando o tema é sucessão no Palácio dos Bandeirantes.
  • Não por outro motivo, sempre que Tarcísio começa a se movimentar na direção de um projeto presidencial, o petista faz circular que lançará Alckmin ao Bandeirantes.
  • O recado implícito do presidente é: se você deixar o governo para concorrer ao Planalto, coloco meu vice para complicar sua vida e a de seu grupo político em São Paulo.

Agora que o atual governador vem dando sinais de que concorrerá à reeleição, o presidente intensificou as gestões para empurrar um desmotivado Fernando Haddad, já derrotado por Tarcísio em 2022.

  • No Bandeirantes e na Prefeitura de São Paulo, a provável escolha de Haddad, por ora, não mete medo em ninguém.
  • O entorno de Tarcísio entende que Alckmin, ex-governador por quatro mandatos, seria o candidato mais difícil de ser batido por qualquer nome escolhido pelo governador para sua sucessão.
  • Depois dele, Simone Tebet, ministra do Planejamento. A avaliação é de que ambos possuem mais condições de caminhar da esquerda rumo ao centro do eleitorado e furar a bolha esquerdista no estado.

Em privado, petistas torcem para Flávio Bolsonaro ser candidato a presidente.

  • Assim, há quem acredite que Tarcísio, de olho em 2030, fingirá fazer campanha pelo senador — e Lula simulará empenho total em eleger seu ministro da Fazendo, quando, na verdade, está mais preocupado mesmo em quantos votos ele conseguirá para sua reeleição no maior colégio eleitoral do país.
  • O ex-presidente Jair Bolsonaro sentiu o cheiro de queimado e, amanhã (29), tentará enquadrar Tarcísio para que ele entre de corpo e alma na campanha de Flávio.

Aliás… Agentes importantes do mercado financeiro procuraram Tarcísio oferecendo a ele “posições futuras” em fundos de investimento, caso decida concorrer ao Planalto e acabe derrotado por Lula, continua Beto Bombig.

  • A ideia, claro, é estimular o governador a não desistir da disputa com Flávio.

4. Eu preciso saber da sua vida

O ex-presidente Jair Bolsonaro / Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil – 14.set.2025

O ministro Alexandre de Moraes requisitou um relatório completo com as atividades de Jair Bolsonaro desde a sua transferência para a Papudinha, em Brasília.

  • O ministro deu cinco dias para que o 19º Batalhão da Polícia informe detalhadamente, com data e horário, sobre visitas, consultas e exames médicos, fisioterapia e atividades físicas, atividades laborais, leituras e eventuais intercorrências.

5. ‘Providências preventivas’

A ministra Cármen Lúcia durante evento no TSE, em Brasília / Crédito: Alejandro Zambrana/TSE

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, disse nesta terça (27) que é necessário garantir o uso transparente de ferramentas de inteligência artificial durante as eleições, Lucas Mendes relata no JOTA.

  • Para a ministra, que não estará à frente da Justiça Eleitoral durante o pleito deste ano, o TSE deve atuar com planejamento e “adoção de providências preventivas”.
  • Cármen Lúcia classificou os temas da desinformação e do uso da inteligência artificial nas eleições de “desafios novos” e, para ela, o abuso das tecnologias pode distorcer a livre escolha do eleitor.

🗣️ O que a ministra disse:

  • “[É preciso] fazer com que essas tecnologias sejam usadas de maneira transparente, para se saber o que foi manipulado, como foi, e se houve, como será essa retirada sem de alguma forma restringir, limitar ou até extinguir a liberdade de expressão.”
  • “Tecnologias não são boas ou más, mas o abuso delas podem levar a contaminação de eleição, do voto, pela captura da vontade livre do eleitor, com as mentiras tecnologicamente divulgadas como a chamada desinformação que deforma, transforma, ilude.”
  • “Ao invés de garantir o direito constitucional à informação, passam a desinformar, isso pode levar que alguém vote achando que está voltando numa pessoa que o represente e que no final descobre que aquilo não passava de uma falsidade. O que temos de fazer é garantir que esse tipo de situação não possa progredir.”

Aliás… Tribunais têm editado normativas para reembolsar servidores e magistrados por assinaturas de ferramentas de IA, mostra o Núcleo (sem paywall).

  • O TRF1, por exemplo, prevê até R$ 400 mensais.

6. Só depois da folia

Crédito: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

União, estados e municípios estão com esforços concentrados para a publicação do regulamento do IBS (Imposto Sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição Sobre Bens e Serviços), Bárbara Mengardo e Fernanda Valente escrevem no JOTA PRO Tributos.

  • Não está claro se será publicado um texto específico para a regulamentação da lei complementar 227/26 ou se as disposições sobre a norma virão junto ao regulamento dos novos tributos.
  • A ideia inicial é que seja publicado um “regulamento comum”, que contemplaria todos os entes, segundo fontes ouvidas pelo JOTA.
  • Embora ainda não haja data definida, interlocutores também dizem ser improvável a publicação antes do Carnaval.

Por que importa: A publicação do regulamento é fundamental para o início da contagem de prazo para aplicação de multas por descumprimento de obrigações acessórias.

  • A falta de regulamentação também impede a estruturação completa do comitê gestor e o repasse de recursos federais previstos na lei complementar 214/25.

⏩ Pela frente: A expectativa é que o comitê provisório marque reunião nesta semana para deliberar sobre o regulamento.

  • Empresas do Simples Nacional devem indicar valores de IBS e CBS nas notas fiscais até 31 de janeiro, mas ainda há incertezas sobre o percentual de adesão.
  • A exigência de destaque para optantes pelo Simples valerá a partir de 2027.

7. Cuidado para não recrear

Crédito: Reprodução

A Anvisa apresentou as novas normas para produção, pesquisa e cultivo de cannabis medicinal no Brasil, atendendo à decisão do STJ, que fixou o prazo de 31 de março para a regulamentação, Vilhena Soares escreve no JOTA.

  • As resoluções serão discutidas hoje (28) pela diretoria colegiada.
  • “A proposta passou por um círculo regulatório criterioso, 29 consultas já foram realizadas e mais de 15 associações foram ouvidas”, disse Leandro Safatle, presidente da agência, em apresentação nesta segunda (26).
  • “Chegamos a um projeto final bastante embasado.”

Por que importa: A regulamentação estabelece critérios para a produção medicinal e farmacêutica da cannabis, garante controle sanitário e cria regras específicas para pesquisas científicas e associações de pacientes.

  • A medida abre caminho para maior acesso a tratamentos e mais segurança jurídica.

🌿 A estratégia da Anvisa é dividir a regulamentação em três resoluções:

  • uma para produção de cannabis com até 0,3% de THC;
  • outra para pesquisas científicas, inclusive com teores maiores;
  • e uma terceira voltada a associações de pacientes.

⏩ Pela frente: A diretoria colegiada da Anvisa discutirá as resoluções, e a expectativa é de aprovação dentro do prazo estabelecido pelo STJ.

  • Após a publicação, a agência monitorará a implementação das normas e poderá realizar revisões conforme o andamento dos projetos.