A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, procurou afastar o governo Lula do caso Master, em entrevista coletiva concedida na manhã desta quarta-feira (28/1), em Brasília. Ela disse que há “muito mais governos de oposição” ligados ao escândalo envolvendo o banco, liquidado pelo Banco Centra, e defendeu o ex-ministro Ricardo Lewandowski, que atuou como consultor da instituição, afirmando que foi na gestão dele à frente do Ministério da Justiça que o banqueiro Daniel Vorcaro foi preso.
Gleisi também falou sobre a pauta legislativa, afirmando que a aprovação do fim da escala 6×1 será uma prioridade do governo neste semestre legislativo – embora integrantes do governo vejam esse cenário como difícil, vislumbrando o tema como uma pauta para a campanha da reeleição de Lula.
Gleisi ainda defendeu a queda da Selic já na reunião do Comitê de Política Monetária desta quarta-feira (28/01), enquanto a maioria dos analistas espera a manutenção de uma taxa anual de 15%.
Leia os principais pontos da entrevista
Banco Master
Gleisi negou que as ligações do escritório de advocacia da família do ex-ministro Lewandowski e seu passado como consultor do Master tenham ligação com a decisão dele de deixar o Ministério da Justiça. Ela chegou a dizer que o ex-ministro comunicou ao presidente Lula que fazia consultoria para o banco ao aceitar o cargo. Mas depois se corrigiu, dizendo que Lewandowski comunicou ao presidente que teria que se afastar de algumas atividades privadas, sem especificar se falou ou não sobre o banco. Em defesa do ex-ministro, afirmou que foi à frente de sua gestão na pasta que o banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.
Ela também tentou diminuir a importância das ligações do banqueiro com o PT baiano e a reunião de Vorcaro com Lula fora da agenda, em dezembro de 2024, afirmando que o presidente “recebe muita gente”. Afirmou que a maioria dos envolvidos no escândalo está em torno da oposição, aproveitando para relembrar que um dos investigados, o pastor Fabiano Zettel, foi o maior doador das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas em 2022.
A ministra disse ainda que o governo defende a continuidade das investigações e que cabe ao Congresso decidir se haverá uma CPMI ou CPI no Congresso para investigar o caso. Segundo ela, também que não cabe ao governo opinar sobre a atuação do Supremo, em meio às informações de que Lula estaria contrariado com a postura do ministro Dias Toffoli.
Escala 6×1
Gleisi afirmou que o fim da escala 6×1 é uma das prioridades do governo “nesta legislatura” e que o Planalto analisa a melhor alternativa para fazer com que o projeto prospere. Disse que não está descartada a possibilidade de o governo enviar ao Congresso um projeto para unificar todas as propostas que hoje tramitam no Legislativo, o que poderia ocorrer depois do Carnaval.
Segundo Gleisi, Motta lhe assegurou que colocaria o projeto em votação, embora não tenha prometido a aprovação da proposta. Afirmou também ver semelhanças entre essa pauta e a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, que já está em vigor – algo que todo mundo achava que seria impossível aprovar e foi aprovado por unanimidade, segundo ela.
Disse ainda que a maioria da indústria já não trabalha com esse tipo de escala e que é preciso encontrar uma saída para os pequenos empresários, “se preocupação é com os pequenos”. “Mas não podemos deixar de avançar nessa pauta”, afirmou.
Redata e IA nas eleições
Gleisi afirmou que o uso da Inteligência Artificial nas eleições preocupa muito o governo, algo que pode ser “muito pesado” no sentido de influenciar o resultado do pleito. Ela defendeu que haja regulamentação, mas afirmou não saber se será possível aprovar o PL de Inteligência Artificial até as eleições.
A ministra abriu a possibilidade de separar o PL 2338/2023, da Inteligência Artificial, da MP 1318/2025, do Redata, à qual foi incorporado durante a tramitação no Congresso. “Como a Inteligência Artificial é um tema complexo, é possível que tenhamos que separar os projetos.”
Emendas parlamentares
Disse que o governo concorda com a execução de 65% das emendas impositivas até o meio do ano, “porque isso é perfeitamente possível”. A maioria, disse, é formada por emendas da Saúde, de processamento rápido porque não requerem convênios.
Mas afirmou que o governo não tem compromisso de fazer a execução de emendas não impositivas, referindo-se ao bloqueio de R$ 11 bilhões feito pelo presidente Lula na sanção do Orçamento. “O que foi acordado, nós vamos cumprir”, afirmou.
PEC da Segurança e PL Antifacção
Citou os dois projetos como prioridades do governo. E disse não se opor à nomeação de Guilherme Derrite (PP-SP) como relator do segundo, desde que a Câmara referende o texto aprovado pelo Senado. “Esperamos que o relator que venha a ser designado venha com essa mentalidade.”
Juros e Copom
Disse achar “um absurdo” os juros prosseguirem no atual patamar”, e afirmou que a principal consequência dessa política é o aumento da dívida pública – lembrando que as pessoas se queixam do governo por causa de gastos, mas que a principal causa do maior endividamento são os juros altos. Defendeu que o atual ambiente, de inflação baixa, dólar caindo, preço dos alimentos controlados, contribui para a queda da Selic. “Eu, realmente, espero que a taxa de juros caia nessa próxima reunião.”
Messias no STF
Afirmou que Lula deve enviar ao Congresso a mensagem com a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) ainda em fevereiro, sem especificar data, e disse acreditar que a sabatina ocorra antes da eleição, não depois, como chegou a sinalizar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Veto ao PL da Dosimetria
Disse que irá trabalhar junto ao Congresso Nacional para que o veto integral de Lula seja mantido. Mas não descartou judicializar o tema, caso o veto seja derrubado. “Estamos esperando a decisão do Congresso para ver que decisão nós vamos seguir.”
Eleições
Confirmou que deixa o cargo em março para se candidatar ao Senado pelo Paraná. E disse que a bancada do PT na Câmara pode crescer na próxima eleição. Afirmou ainda que a maioria dos ministros deverá indicar seu substituto, mas que a decisão final cabe a Lula.
“A priori, eu iria sair para deputada federal. Acho que temos que investir nas nossas candidaturas. Temos 69 deputados, acho que podemos chegar a 80, 85. Dentro dessa estratégia que temos que fazer uma disputa, ele me pediu que disputasse o Senado”, disse. “Nomes que têm saído na mídia devem ser a tendência de ficar nesses ministérios. Mas isso cabe ao presidente Lula”, ressaltou.
Fernando Haddad
Defendeu enfaticamente que Fernando Haddad dispute as eleições, enquanto o ministro insiste em apenas coordenar o programa de governo de Lula.
“Não temos direito de deixar a extrema-direita voltar ao poder no país. Eu acho que todos têm que entrar em campo, todos têm que vestir a camisa. Por isso, defendo que todos os nossos melhores quadros disputem as eleições, inclusive o ministro Haddad.”
Palanques que mais preocupam
Disse que Minas Gerais é um Estado estratégico, pois “quem ganha em Minas ganha no Brasil”. E confirmou que Lula insiste na candidatura de Rodrigo Pacheco a governador.
“O presidente tem falado que vai insistir com o Rodrigo Pacheco. Tem conversas que o PT está fazendo com MDB e PDT [no Estado]. O presidente tem se dedicado pessoalmente a isso”, afirmou. “O presidente ainda não desistiu [de Pacheco], ele [Lula] tem um poder de convencimento muito grande”.
PSD nas eleições
Para Gleisi, com a filiação de Ronaldo Caiado, o PSD “fica como está”. Lembrou que Lula teve apoio de políticos do partido em 2022 em vários Estados, que o PSD “não é um partido de unidade nacional”, mas se move por interesses regionais e dos Estados.
Flávio Bolsonaro e Tarcísio
Sobre o bom desempenho de Flávio Bolsonaro após se lançar ao Planalto, disse que “é muito difícil um candidato que tem apoio do Bolsonaro não ir bem nas pesquisas”.
“É por isso que Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo] está recuando [de sua candidatura]”. “Não nos assusta. Sabemos que será uma eleição disputada, mas temos muitos feitos para mostrar”, concluiu.
