A miragem aparece no deserto de ideias da política brasileira a cada quatro anos e atende pela alcunha de terceira via. Em 2022, Simone Tebet, então candidata à presidente pelo MDB, vestiu no primeiro turno a indumentária de alternativa ao bolsonarismo de extrema direita e à centro-esquerda lulista ainda rotulada por muitos como socialista.
Em pleitos anteriores desde 2010, o papel foi desempenhado sobretudo por Marina Silva, que ousou encarnar uma esquerda liberal. O fracasso dessas experiências reside no mesmo fator: o eleitorado que antes votava no PSDB, que refletiu em seu auge um centrismo possível no pós-ditadura e auge da globalização, exige radicalismo à direita. Ponto final.
Por isso, são ingênuas as expectativas de que o PSD de Gilberto Kassab venha a encarnar nas eleições presidenciais uma terceira via. No máximo, caso lance candidato ao Planalto, o partido desempenhará o papel de linha auxiliar de Flávio Bolsonaro, pré-candidato pelo PL e escolhido pelo pai Jair que, encarcerado, busca afirmar sua primazia não apenas sobre os extremistas de direita, mas sob todo esse lado do espectro político nacional. Como já escrevi aqui anteriormente, falta coragem para se livrar do esgoto bolsonarista.
Uma terceira via de fato, no atual contexto, condenaria o golpismo liderado por Bolsonaro e criticaria a ausência de reformas substanciais sob Lula 3. Com isso, sinalizaria compromisso com a ordem constitucional de 1988 e atuaria como oposição de fato, criticando a atual administração pela expansão de gastos públicos sem a perspectiva de que eles aumentem o bem-estar socioeconômico no longo prazo e a negligência em prover soluções para problemas estruturais do país, em particular a insegurança pública.
Nenhum dos presidenciáveis elencados por Kassab — incluindo o candidato Porcina (aquele que foi sem nunca ser ter sido) Tarcísio de Freitas, hoje no Republicanos — contesta o bolsonarismo nem oferece uma alternativa à condução lulopetista da economia que não seja um liberalismo selvagem para os pobres e a manutenção do capitalismo de compadrio para os ricos.
Não culpem os governadores-presidenciáveis Eduardo Leite (RS), Ratinho Júnior (PR) e Ronaldo Caiado (GO) que hoje pertencem aos quadros do PSD pela falta de ousadia. Exigir deles capacidade para redirecionar as preferências do eleitorado seria pedir demais considerando a falta de visão nacional de todos eles.
Resta-lhes, portanto, seguir o que o eleitorado de direita quer em sua maioria, oferecendo apenas um verniz centrista — numa metáfora, o bolsonarismo de sapatênis. Tarcísio entra em outra categoria, pois sucessivas afirmações vindas de sua própria boca sugerem que ele não é partidário de Bolsonaro por conveniência, mas por convicção.
O eleitorado pode reportar às pesquisas de opinião seu desejo por alternativas políticas a Lula e Bolsonaro, mas os valores reportados pelo eleitor médio não deixam dúvidas de que ainda estamos num ambiente predominantemente conservador, para não dizer reacionário.
Tal visão de mundo é ainda mais rígida entre os votantes masculinos, como, aliás, ocorrem em outras democracias onde há uma polarização entre extrema direita e um polo democrático moderado, ainda fiel a conquistas da difusão de valores de empoderamento individual ocorrida durante a globalização do pós-Guerra Fria.
Foi nesse ambiente que o Brasil do pós-ditadura civil-militar se desenvolveu, expandindo direitos aos deserdados da terra, mas sem contestar por completo os privilégios de todas as elites tradicionais que historicamente progrediram parasitando o Estado e o erário. Resultado: não aproveitamos como poderíamos o ciclo de abertura econômica e prosperidade global que se seguiu ao fim do embate entre Estados Unidos e a antiga União Soviética. Com o recrudescimento das tensões geopolíticas, essa janela de oportunidade não mais existe.
Assim, deveria haver mais suspeição acerca de soluções como as propostas pelos pretensos centristas e os bolsonaristas-raiz. O ethos direitista na economia implica não redefinir o Estado para o empoderar externamente enquanto resolve dilemas de desenvolvimento internos. O discurso e as ações no nível subnacional indicam uma adesão acrítica a princípios de livre-mercado que, hoje, nem sequer são praticados nos berços do neoliberalismo, notadamente Estados Unidos e Reino Unido.
Com o sentimento antissistema ainda latente e identificando a centro-esquerda e seu nacionalismo com um sistema corrompido, o eleitor médio ainda está suscetível a aventuras antidemocráticas. Se a direita que se vende como centro ainda tivesse o mínimo de capacidade de leitura do cenário internacional, teria se afastado do bolsonarismo depois do infame tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, estimulado por Eduardo “Bananinha” Bolsonaro após sua fuga para os EUA.
Afinal, melhor perder a eleição — o que parece ser inevitável com a polarização acima descrita — e preparar o terreno para o pós-Lula em 2030, quando, ainda que não seja reeleito em outubro próximo, o atual presidente não vai mais se colocar à disposição de disputar eleições. Com a falta de um sucessor para liderar a esquerda, deve cair no colo dos centristas de verdade a tarefa de combater o bolsonarismo.
Será que é isso que Kassab tem em mente? No curto prazo, o objetivo declarado das movimentações do PSD, inclusive a recente filiação de Caiado ao partido, é lançar alguém ao Planalto para aumentar suas bancadas na Câmara e no Senado. Sem ideias próprias, aquele que é tido como o maior jogador atual dos bastidores da política brasileira e seus liderados podem acabar engolidos pelo bolsonarismo, ainda que muitos se enganem por verem no chão pegadas de sapatênis e salto-alto em vez do rastro de coturnos e botas que passaram pelo esgoto.
