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O desafio do Brasil frente ao avanço do hidrogênio e seus derivados verdes

09/03/26

Entre compromissos ambiciosos, leilões experimentais e decisões estratégicas de grandes empresas, a indústria global de hidrogênio verde está mudando de fase. Sai-se da euforia de anúncios e entra-se em um período de seleção, maturação e execução de projetos. O Brasil possui atributos naturais e industriais promissores, com a possibilidade real de transformar diagnósticos técnicos em governança, demanda e capital catalítico.

De uma forma geral, a mudança da percepção do mercado sobre os projetos de hidrogênio, amônia, e-metanol e fertilizantes verdes está relacionada a alguns fatores, apresentados a seguir.

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O primeiro diz respeito à escala real e depuração. De acordo com a nota técnica da ABIHV de janeiro de 2026, existem, hoje, mais de 500 projetos de hidrogênio limpo em FID (final investment decision), construção ou operação, somando cerca de US$ 110 bilhões. Porém, 52 projetos (~4 Mtpa) foram reavaliados ou cancelados recentemente. Esse “natural screening” sinaliza maturação, não colapso, mas exige disciplina nas políticas públicas e nos instrumentos privados.

Em segundo lugar, é bem verdade que há uma tríade do sucesso, tendo em vista que os projetos que chegam ao FID compartilham três pilares claros: offtake/demanda firme, regulação clara e estrutura de financiamento consistente. Sem esses três elementos, as chances de conversão de contratos em plantas reais caem drasticamente.

Por fim, mas não exaurindo todas os motivos, algumas controversas estratégias corporativas podem ter sido tomadas e são, agora, desfeitas. Grandes empresas adotaram a lógica “Fill, Hold and Fold”, visando garantir posição em projetos estratégicos, colocar outros em standby e descartar iniciativas com perfil de risco incompatível. Isso reforça que o mercado será menos pulverizado e mais concentrado em projetos maduros e com cadeia integrada.

Outrossim, vale mencionar tendências geopolíticas e econômicas que aceleram o hidrogênio verde (e produtos) no Brasil e no mundo. Como amplamente discutido, choques geopolíticos recentes mostraram que a dependência de combustíveis fósseis externos é uma vulnerabilidade estratégica. Deste modo, a eletrificação e as fontes renováveis entregam, hoje, a maior parcela da nova geração de energia a custo inferior em relação aos combustíveis fósseis (IRENA, 2026) e a integração com o hidrogênio verde amplia essa segurança para setores difíceis de eletrificar diretamente.

Há uma atenção especial também às políticas industriais e aos instrumentos públicos. Na Europa, iniciativas como metas offshore, mecanismos de apoio “Made in Europe” para eletrolisadores e fundos de aceleração industrial já estão desenhadas para criar mercados de demanda (e proteções competitivas).

Países como Marrocos, Egito e consórcios estatais em projetos de referência (Mongólia e Arábia Saudita, por exemplo) mostram o papel decisivo do Estado em assumir o risco inicial e articular infraestrutura e mercados. Porém, importa mencionar que o deslanche da regulação pelo lado europeu é absolutamente imperativa para a criação de demanda firme dos produtos.

Atualmente, as diretivas europeias, como o REDIII, ainda não incorporadas pelos Estados-membros, imprimem incertezas ao mercado, incrementando a impressão de demanda insuficiente, como ausência de offtakers domésticos com contratos de longo prazo e a falta de mandatos, metas e compras públicas que assegurem mercado para projetos caros.

Pelo lado do Brasil, além dos decretos regulamentadores que ainda não foram publicados, existem questões sobre a certificação e a rastreabilidade do atributo “verde” e sobre a aplicabilidade de modelos book & claim no arcabouço regulatório nacional. Ademais, vale a menção aos investimentos necessários em portos, hubs de amônia e integração com cadeias industriais, considerando que os custos financeiros mais altos do que os verificados em países desenvolvidos exigem uma estrutura catalítica de capital.

Para além dos decretos, a ansiedade do mercado reside no desenho que o processo concorrencial do Programa de Hidrogênio de Baixo Carbono (PHBC), à cargo do Ministério da Fazenda, terá para o melhor uso do recurso público conferido pela Lei 14.990/2024. Neste sentido, a experiencia internacional demonstra que leilões centrados somente no preço, ou seja, desenhados apenas para premiar o menor preço tendem a gerar “bolha de anúncios” e alta taxa de cancelamento.

Assim, com a finalidade de evitar especulações, se recomenda a exigência de critérios mínimos de maturidade para participação nos leilões, como (i) licenciamentos e comprovação de fase avançada (protocolos e licenças preliminares), (ii) engenharia, estudos técnicos‑econômicos e modelos financeiros consolidados, (iii) evidência de equity comprometido e garantias compatíveis do lado financeiro e (iv) sólidos acordos comerciais (MoUs/HoAs) ou pré‑contratos com compradores, especialmente âncoras industriais. Além disso, deve-se privilegiar rotas de menor emissão, como a verde, para garantir que a agenda de descarbonização real desejada pelo poder público seja efetiva.

Adicionalmente, com base em evidências e lições internacionais aprendidas nos últimos meses, um plano mínimo para o Brasil deveria incluir, de forma coordenada e com prazos:

  1. A criação de demanda real, com mandatos de mistura/setoriais (fertilizantes, siderurgia, refino e transporte marítimo) e programas de compras públicas coordenados com a política industrial;
  2. A reformulação de leilões, para adicionar critérios de maturidade e garantias proporcionais ao porte, bem como priorizar modelos integrados (produção + demanda);
  3. A mobilização de capital catalítico, com linha de crédito e garantias do BNDES, blended finance e atração de investidores institucionais para produtos financeiros específicos;
  4. O desenvolvimento de infraestrutura, a partir de planos de investimento público‑privado para portos, hubs de amônia e logística de exportação/importação;
  5. O estabelecimento de regras de certificação, com a definição técnica e regulatória sobre rastreabilidade, aceitação de book & claim (se aplicável) e alinhamento com padrões internacionais; e
  6. A definição de governança, através da criação de um comitê técnico‑industrial com a participação do governo, do BNDES, de associações (ABIHV, ABH2 e outras) e da sociedade civil para avaliar projetos e gerir instrumentos.

Todavia, a implementação dessas medidas exige uma liderança política que aceite os custos iniciais, como subvenções inteligentes e garantias, para capturar cadeias de valor no futuro. Em um ambiente fiscal restrito e com resistência política a subsídios, a alternativa é pagar o preço de perder investimentos para jurisdições mais agressivas (Europa, Oriente Médio, Índia e China), que já movimentam leilões, pacotes de financiamento e investimentos diretos. A competitividade de custo já é visível, a exemplo de leilões na Índia, que mostraram preços muito baixos por kg de hidrogênio verde, pressionando o Brasil a responder com velocidade e coordenação.

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Para a indústria que se desenvolve, o diagnóstico de falhas sistematizadas, relacionadas a licenciamento, incerteza política, custos e falta de offtake, oferece um roteiro técnico para leilões e instrumentos financeiros. Portanto, o desafio brasileiro não é descobrir novas soluções tecnológicas, mas criar a combinação institucional que transforme projetos promissores em FID e operação, a partir de clareza regulatória, demanda assegurada, capital catalítico e governança técnica.

Sem essa articulação, corre‑se o risco de ver o país ser apenas mais um anunciante na “primeira onda” global, enquanto a próxima fase de produção e industrialização se consolida em outros territórios.


Nota técnica ABIHV (jan/2026); Clean Hydrogen Monitor (Hydrogen Council/McKinsey, 2025); Análises sobre segurança energética e iniciativas políticas europeias (Munich Security Conference context, 2025); Gráficos e dados citados conforme ABIHV, pp.1–2.)