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Regulação das big techs na mira dos debates do ‘Gilmarpalooza’

02/06/26

A atuação das big techs foi tema central no primeiro dia do Fórum de Lisboa, apelidado de “Gilmarpalooza”. O foco na tecnologia evitou que os eixos de discussão se deslocassem para outros assuntos, como por exemplo a crise institucional gerada pelos escândalos do Banco Master.

O discurso unívoco entre palestrantes e autoridades brasileiras foi o de que as plataformas precisam ser reguladas: se hoje há uma nova ordem social contemporânea com problemas, eles se devem em grande parte à ausência de regras no ambiente digital e em algoritmos desregulados. 

No centro da proteção contra os algoritmos desregulados, a democracia. E na preocupação mais imediata, a normalidade das eleições. 

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À frente desse discurso estavam principalmente os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. No comando da Justiça Eleitoral em 2022, Moraes enfrentou críticas por decisões heterodoxas para proteger o pleito da desinformação, em especial aquela vinda de extrema direita. 

Para 2026, com Nunes Marques como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a expectativa é de um pleito com menos intervenção judicial. Ainda mais por se tratar de um ministro indicado por Jair Bolsonaro, um dos líderes da direita brasileira.

No “Gilmarpalooza”, Mendes foi o maestro da orquestra a favor da regulação: citou a manipulação algorítmica e a desinformação e usou esse discurso quase como um salvo-conduto das críticas vividas pelo Judiciário. 

Em sua visão, o modo de operação do ambiente digital compromete a formação da vontade democrática e estremece as relações entre os Poderes. 

Para o ministro anfitrião, o Judiciário é colocado como fiador da estabilidade institucional, mas, ao fazê-lo, é criticado por exorbitar as competências, contaminado por um discurso sem debate e imposto pelas redes sociais.

Sem poupar as palavras, Gilmar Mendes falou em “emergência de colossais poderes privados transnacionais dotados de capacidade de vigilância, manipulação e controle sem precedentes na história humana”. 

Já Moraes aproveitou-se do discurso do papa Leão XIV e o transformou em um aliado contra os algoritmos. Durante um painel, o ministro reforçou que o pontífice defendeu a criação de instrumentos normativos adequados capazes de salvaguardar a justiça e de conter os “efeitos nocivos” do poder tecnológico. Moraes brincou que o papa não pode ser chamado de comunista por pedir regulação das redes sociais. 

Moraes repetiu o discurso, que virou mantra, de que a liberdade deve ser exercida com responsabilidade e disse que as big techs têm um poder “jamais visto” e que não existe atividade de grande impacto que não seja regulada.

Em outra frente, representantes do Poder Legislativo aproveitaram o Fórum para mostrar o trabalho do Congresso na proposição de normas para regulamentar o mundo digital. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também adotou o discurso de proteção à democracia como norte da regulamentação das redes sociais. 

“Para lidar com este mundo em contínua mudança, o fundamental é manter firme o compromisso com a democracia”, afirmou. “Essa é a vocação dos Parlamentos: serem caixas de ressonância das diversas visões presentes em nossas sociedades e catalisadores dos consensos necessários”, complementou. 

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Não é de hoje que Moraes e Mendes vêm reforçando o discurso da regulamentação das plataformas digitais – inclusive em julgamentos importantes como o do Marco Civil da Internet. Agora ganham o reforço de parte do Congresso. 

Assim, em um mês que o STF tem importantes pautas sobre o mundo digital, como a uberização e os recursos do Marco Civil da Internet, o recado está claro: as big techs são uma realidade, mas elas deverão se adequar às regras para funcionarem no mundo real – pelo menos na visão das autoridades que palestraram no Fórum de Lisboa.