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O ‘lixo’ nuclear brasileiro é realmente um problema?

08/06/26

Durante décadas, o debate nuclear no Brasil foi capturado por uma narrativa quase
automática: a de que o maior desafio da energia nuclear seria o “lixo atômico”. A
expressão virou slogan político, manchete fácil e instrumento de medo. Mas talvez
esteja na hora de inverter a pergunta.

E se o problema não estiver nos rejeitos radioativos em si, mas na incapacidade do Brasil de construir uma política moderna, racional e estratégica para tratá-los?
A discussão internacional já avançou muito além da retórica alarmista que ainda
domina parte do debate brasileiro.

Países líderes no setor nuclear, como França, Rússia, Reino Unido e até os Estados Unidos, estruturaram modelos robustos de gestão de resíduos, integrando tecnologia, governança, reaproveitamento energético e visão de longo prazo.

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O Brasil, porém, continua preso entre o improviso político e a paralisia institucional.
A França, por exemplo, trata o combustível nuclear usado não como “lixo”, mas como ativo estratégico. Reprocessa material, reutiliza plutônio e urânio em novos
combustíveis e reduz drasticamente o volume final de rejeitos. A Rússia vai ainda
além: opera um modelo de ciclo fechado, investindo em reatores rápidos e tecnologias que transformam resíduos em combustível reutilizável.

Enquanto isso, o Brasil continua armazenando combustível usado em Angra como se estivéssemos esperando o tempo resolver sozinho uma questão tecnológica,
econômica e geopolítica.

O Reino Unido criou uma autoridade específica para descomissionamento e gestão de rejeitos, com participação privada, transparência pública e planejamento de décadas.

Os Estados Unidos, mesmo enfrentando impasses políticos históricos, estruturaram um modelo regulatório claro, com responsabilidade financeira dos geradores e forte separação entre regulação e operação.

E o Brasil?

Seguimos tratando um tema estratégico de soberania energética como um problema periférico de administração pública.

Não há, hoje, uma discussão nacional séria sobre ciclo fechado do combustível,
reaproveitamento energético, economia circular nuclear ou modelos modernos de
armazenamento geológico profundo. O debate brasileiro continua limitado ao “onde colocar o lixo”, como se estivéssemos falando de um passivo sem valor tecnológico algum. A contradição é evidente.

O país que possui uma das maiores reservas de urânio do mundo ainda age como um observador tímido dentro da cadeia nuclear global. O país que fala em transição energética e descarbonização evita enfrentar o debate sobre o único modelo energético capaz de fornecer potência firme, limpa e contínua em larga escala.

E pior: continuamos permitindo que o medo vença a ciência.
É curioso perceber que boa parte das pessoas que demonizam os rejeitos radioativos aceitam, sem questionamento, milhões de toneladas anuais de resíduos tóxicos produzidos por outras cadeias industriais altamente poluentes, muitos deles sem qualquer rastreabilidade, monitoramento permanente ou controle de longo prazo.

Na energia nuclear ocorre justamente o oposto: o volume de resíduos é pequeno,
totalmente rastreado, monitorado e submetido aos mais rigorosos protocolos de
segurança do planeta.

O problema nunca foi tecnológico. O problema é político. O Brasil precisa decidir se
quer participar da nova geopolítica energética global ou continuar refém de um debate dos anos 1980.

A criação da ANSN foi um avanço importante ao separar regulação e fiscalização das atividades de promoção nuclear. Mas isso, sozinho, não resolve o vazio estratégico do país para a gestão de rejeitos radioativos e combustíveis usados.

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Sem planejamento de longo prazo, sem política industrial clara e sem coragem para enfrentar tabus ideológicos, continuaremos acumulando não apenas resíduos, mas atraso.

A pergunta que o Brasil precisa responder não é se a energia nuclear gera rejeitos.
Todas as grandes cadeias industriais geram. Por que países líderes transformam
resíduos radioativos em ativo estratégico enquanto o Brasil insiste em tratá-los apenas como problema? Porque talvez o verdadeiro desperdício não esteja no combustível usado. Talvez esteja na falta de visão do próprio país.