Crises de abastecimento energético vêm e vão. Conflitos geopolíticos elevam o preço do petróleo, amplificam custos de importação e colocam à prova a segurança do abastecimento. Oscilações no mercado internacional afetam a inflação e impactam a competitividade das cadeias produtivas. A cada crise, o poder público adota medidas emergenciais paliativas sem, de fato, construir soluções de longo prazo para mitigar ou mesmo resolver o problema.
Mas esse ciclo é evitável. O Brasil pode e deve romper com a dependência de combustível fóssil importado, mas hesita em converter nosso potencial em ação estruturante. As 1.803 plantas de biogás operacionais ilustram a força de um setor hoje subutilizado. No biometano, o potencial teórico nacional atinge 120 milhões de metros cúbicos diários. Estima-se a produção 35 milhões de metros cúbicos diários do biocombustível em cinco anos, capaz de substituir 75% do diesel importado.
Ações como a Lei do Combustível do Futuro, a criação do Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB) e as regulamentações da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) pavimentaram esse caminho. Portanto, não é questão de capacidade técnica ou tecnológica, mas de visão estratégica e política para escalar o que já funciona.
Enquanto governos em todo o mundo querem descarbonizar suas matrizes energéticas, o Brasil possui matéria-prima, infraestrutura e conhecimento para se consolidar e disparar na liderança global, sendo referência em segurança energética e sustentabilidade. Nesse sentido, o biometano vai muito além de substituir diesel em ônibus e caminhões. Ele reduz a dependência de gás fóssil em diversos setores, como indústria e comércio, viabiliza combustível sustentável de aviação (SAF) e marítimo (Bio-Bunker) e possibilita a produção de amônia verde, diminuindo a importação de fertilizantes.
Cada real investido na cadeia produtiva do biometano gera impactos multiplicadores na economia local e amplifica o retorno tanto econômico quanto estratégico. Com 19 plantas autorizadas pela ANP e outras 50 aguardando autorização, o mercado está pronto. A tecnologia está consolidada e os modelos de negócio, validados. O que falta é uma decisão política que reconheça esse biocombustível como componente central de segurança energética nacional.
Isso significa alocar recursos públicos reconhecendo a urgência do momento, pois as volatilidades internacionais afetam o custo logístico agora. Significa também desenvolver infraestrutura distribuída, conectar o produtor ao consumidor e definir metas de descarbonização com previsibilidade de demanda e segurança energética. Assim, o Estado sinaliza aos investidores seu comprometimento com uma trajetória de longo prazo.
A independência energética transforma o Brasil em exportador de soluções globais. Além de reduzir custos com importações, o país passaria a liderar o mercado de biocombustíveis avançados, gerando emprego e renda em nosso território. A janela de oportunidade está aberta: tecnologia madura, regulação estabelecida, mercado validado e maduro e um contexto geopolítico que amplifica a urgência da segurança e da transição energética.
