As leituras sobre o primeiro turno têm se concentrado na força da direita e no desempenho do PL, mas o que o resultado parece revelar, com mais clareza do que em 2018 ou 2022, é o peso crescente do ambiente digital na formação do voto e na forma como a política será praticada em Brasília nos próximos anos.
O brasileiro passa, em média, 29 horas por semana em redes sociais, contra 18h36 da média mundial1, e pouco mais da metade da população já trata as plataformas digitais como principal fonte de notícias2. Chegou a hora de entendermos que a conversa nas redes deixou de ser apenas um termômetro de crise para se tornar a principal arena onde os votos são disputados.
Figura 1: Tempo semanal em redes sociais no Brasil e na média mundial, e parcela dos brasileiros que têm plataformas digitais como principal fonte de notícias

O monitoramento da ágora mostra que, nos temas que mais mobilizaram a reta final, o engajamento pendeu de forma consistente para a oposição, que concentrou 77% das interações sobre a crise do Supremo e 72% das reações à fala de Lula sobre exames de toque3. O governo só prevaleceu nas pautas que ele próprio criou, como a proibição das bets e o reajuste do Bolsa Família, ainda que com forte oposição nos dois casos.
Figura 2: Distribuição do engajamento político nos temas mais discutidos da reta final, entre posts favoráveis ao governo e à oposição

A diferença não está apenas na capacidade de gerar volume, mas na organização. A direita opera hoje algo próximo de um partido digital, paralelo à estrutura formal do PL, com mobilização permanente e pautas coordenadas entre perfis de grande alcance. Quando as mensagens entre Moraes e Vorcaro vieram a público, a conversa sobre o 7 de Setembro passou de 1.200 para 20,7 mil menções diárias e mudou de mote em poucas horas4.
Nesse arranjo, Nikolas Ferreira tem ocupado um papel de articulador, com os conteúdos que mais engajam internautas mesmo em pautas supostamente favoráveis ao governo3 e um apoio que virou credencial para candidaturas em vários estados.
Na eleição para o Senado, nomes cuja projeção se deu sobretudo nas redes, como Gustavo Gayer, Bia Kicis, Carlos Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Zé Medeiros, Deltan Dallagnol, Caroline de Toni, Carlos Jordy e Marcel van Hattem, foram eleitos, enquanto figuras consolidadas da política institucional, entre elas Renan Calheiros, Ciro Nogueira, Marina Silva, Benedita da Silva e Randolfe Rodrigues, ficaram de fora.
Além disso, o próprio Nikolas Ferreira superou a marca dos 3 milhões de votos, bem como Lucas Pavanato, em São Paulo6. Nomes com forte presença nas redes, como Cleitinho Azevedo e Luciano Zucco, também conseguiram vitórias relevantes em seus estados, reforçando que a força eleitoral de um candidato está cada vez menos nas suas articulações institucionais e mais na sua presença digital.
A crise do Supremo parece ter sido o catalisador. A conversa sobre a Corte, já majoritariamente negativa, multiplicou-se por cinco em setembro e foi convertida em cobrança sobre o Legislativo5, num contexto em que 77% dos brasileiros se dizem favoráveis ao impeachment de ministros7.
Figura 3: Menções diárias ao STF e a seus ministros nas redes sociais e na imprensa digital, de 1º de janeiro a 5 de outubro de 2026

Isso ajuda a explicar por que as pesquisas captaram o cenário apenas parcialmente. A maior parte dos levantamentos dos institutos de pesquisa indicava vantagem de Lula8, mas o primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro à frente6. Mais do que um erro metodológico, trata-se de um movimento que se acelera em poucos dias e que os questionários demoram a registrar, enquanto a conversa digital tende a antecipá-lo. É com base nessa leitura que entendemos que escuta social e inteligência de dados devem ocupar um lugar cada vez mais central na análise política.
Para os próximos anos, a tendência é de um Congresso mais sensível a métricas de engajamento do que a hierarquias partidárias. Agenda legislativa, relação com o Supremo e indicações à Corte devem ser negociadas sob pressão digital contínua, e as lideranças tradicionais terão de conviver com atores cuja força não depende de estrutura partidária.
Os dados de monitoramento de redes citados neste texto foram produzidos pela ágora: Thinking a partir de menções e interações em X, Instagram, Facebook, YouTube, Bluesky, Reddit, Pinterest e imprensa digital.
1.WE ARE SOCIAL; MELTWATER. Digital 2026: Brazil. DataReportal, 2026. Disponível em: https://datareportal.com/reports/digital-2026-brazil.
2.REUTERS INSTITUTE FOR THE STUDY OF JOURNALISM. Digital News Report 2025. Oxford: Reuters Institute, jun. 2025. Disponível em: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025.
3.ÁGORA: THINKING. Reta final das eleições: quais pautas dominaram as redes nos últimos 15 dias e quem chega fortalecido para a votação de domingo?. 1º out. 2026. Disponível em: https://agorathinking.substack.com/p/reta-final-das-eleicoes-quais-pautas.
4.ÁGORA: THINKING. Caso Master muda de lado: revelações sobre Moraes ainda não atingem Lula diretamente, mas já reorganizam o 7 de setembro. 3 set. 2026. Disponível em: https://agorathinking.substack.com/p/caso-master-muda-de-lado-revelacoes.
5.ÁGORA: THINKING. Disputa no STF fortalece polarização nas redes sociais. 18 set. 2026. Disponível em: https://agorathinking.substack.com/p/disputa-no-stf-fortalece-polarizacao.
6.TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Resultados das Eleições 2026 – 1º turno. Brasília, 4 out. 2026. Disponível em: https://resultados.tse.jus.br.
7.INDEXA/BROADCAST. Pesquisa de opinião sobre o Supremo Tribunal Federal, campo de 10 a 13 set. 2026. Citada em ágora: Thinking, “Disputa no STF fortalece polarização nas redes sociais” (ref. 5).
8.ATLASINTEL/BLOOMBERG (campo de 25 a 30 ago. 2026) e QUAEST (campo de 30 ago. a 1º set. 2026). Pesquisas de intenção de voto para presidente, cenários de 2º turno. Citadas em ágora: Thinking, “Caso Master muda de lado” (ref. 4).
