As mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro. Em 2026, há 83,9 milhões de eleitoras aptas a votar, o que corresponde a 52,84% do eleitorado, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso, porém, não significa que as mulheres formem um grupo homogêneo: idade, raça, renda, religião e, sobretudo, posicionamento ideológico ajudam a explicar a diversidade de suas preferências políticas. Essa diversidade também é importante quando olhamos para as mulheres que se identificam ideologicamente com a direita.
As mulheres à direita foram decisivas nas eleições presidenciais de 2022, e os resultados do primeiro turno indicam que elas também foram determinantes para a ampla vitória dos partidos de direita no primeiro turno de 2026. Os dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), realizado em 2022 com 2.001 entrevistados, dos quais 1.055 eram mulheres, ajudam a dimensionar esse eleitorado. Entre as entrevistadas, 42,7% se posicionavam à direita, 24,3% à esquerda, 14% ao centro e 19% não se posicionavam na escala.
Alinhamento ideológico e voto, porém, não são equivalentes. Entre as mulheres que votaram em Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno daquele ano, 81,6% se posicionavam à direita; entre as eleitoras de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 32,2% também se identificavam com essa ideologia. Entre as eleitoras de Lula, 53,9% se posicionavam à esquerda, contra 4% entre as eleitoras de Bolsonaro.
Como discutimos nesta coluna, a avaliação das consequências da pandemia de Covid-19 influenciou o resultado das eleições de 2022: parte das eleitoras identificadas com a direita pode ter responsabilizado o presidente pela crise e deixado de apoiá-lo, apesar de se identificarem ideologicamente com ele.
O perfil revela que o eleitorado feminino que se posiciona à direita é diverso. Entre elas, 47,5% são evangélicas, 41,2% católicas, 5,2% pertencem a outras religiões e 6,1% não têm religião. Na dimensão racial, 40,0% se identificam como brancas, 50,2% pardas e 8,4% pretas. Consideradas conjuntamente, mulheres pardas e pretas correspondem a 58,6%.
Perfil das eleitoras segundo voto no segundo turno da eleição presidencial em 2022

Os resultados indicam que raça/cor e religião não distinguem esses grupos da mesma forma. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas na distribuição racial entre mulheres de direita e de esquerda/centro. Já a distribuição religiosa apresenta diferenças significativas entre os grupos: enquanto as evangélicas representam 47,5% das mulheres de direita, entre as mulheres de esquerda/centro essa proporção é de 23,0%. Em contrapartida, as católicas correspondem a 41,2% das mulheres de direita e a 53,8% das mulheres de esquerda/centro.
Entre as mulheres que concorreram e foram eleitas para cargos no Executivo e no Legislativo nas eleições de 2026, como se reflete essa pluralidade? Por um lado, em nenhum partido há paridade de gênero — as mulheres continuam minoritárias, e nenhuma mulher foi nomeada pelos partidos para disputar a eleição presidencial como presidente ou vice-presidente, seja em partidos de direita, de centro ou de esquerda, que foram os mais competitivos. Porém, há tendências que merecem melhor compreensão.
No primeiro turno deste ano, 12 mulheres foram eleitas para o Senado, em 54 vagas em disputa, formando a maior bancada feminina já eleita para a Casa. Outras cinco chegaram às disputas pelos governos estaduais: Raquel Lyra, reeleita em Pernambuco no primeiro turno, enquanto Mailza Assis, Professora Maria do Carmo, Celina Leão e Professora Dorinha avançaram para o segundo turno.
Das 17 mulheres que chegaram às posições analisadas no Senado e nos governos estaduais, ou seja, aos cargos mais altos na eleição, 13 concorrem ou foram eleitas por partidos classificados à direita, segundo a classificação de partidos de Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023). Em 2022, quatro mulheres foram eleitas para o Senado: Damares Alves (Republicanos), Professora Dorinha (União) e Tereza Cristina (PP), à direita, e Teresa Leitão (PT), à esquerda. Naquele ano, Fátima Bezerra (PT) e Raquel Lyra foram eleitas governadoras.
Perfil das mulheres eleitas ao Senado e aos governos à direita em 2026

Os dados disponíveis não permitem uma comparação inteiramente equivalente entre os grupos, mas mostram que a presença de mulheres vinculadas a diferentes tradições religiosas também faz parte da representação política da direita. Entre as mulheres que se posicionavam à direita no Eseb, 47,5% eram evangélicas e 41,2% católicas. Entre as 13 representantes analisadas, cinco são católicas, cinco evangélicas e três são identificadas publicamente apenas como cristãs, sem denominação específica.
As trajetórias políticas ajudam a entender melhor o perfil da mulher que avança em partidos de direita. Entre as 13 mulheres da direita analisadas, oito já haviam exercido algum mandato eletivo, enquanto cinco chegaram a essas posições sem experiência eleitoral prévia.
Entre as primeiras, há percursos que combinam Legislativo e Executivo. Raquel Lyra, por exemplo, foi deputada estadual, prefeita de Caruaru e governadora de Pernambuco; Celina Leão exerceu mandatos como deputada estadual e federal antes de assumir o posto de vice-governadora do Distrito Federal; e Teresa Surita foi deputada federal e prefeita de Boa Vista. Professora Dorinha, por sua vez, construiu sua carreira no Legislativo federal e também ocupou a Secretaria da Educação e Cultura do Tocantins.
Além da diversidade nas experiências eletivas, é possível identificar também diferenças nas trajetórias partidárias dessas representantes. Mara Rocha, por exemplo, foi eleita deputada federal pelo PSDB e posteriormente se filiou ao MDB, antes de disputar o Senado pelo Republicanos. Raquel Lyra passou pelo PSB e pelo PSDB antes de ser reeleita governadora pelo PSD. Já Bia Kicis e Carol de Toni foram eleitas deputadas federais pelo PSL e depois se filiaram ao PL.
Professora Dorinha, eleita deputada federal pelo DEM, chegou à disputa pelo governo do Tocantins filiada ao União Brasil, partido formado pela fusão entre o DEM e o PSL. Esses percursos indicam que a representação feminina da direita não é construída por uma trajetória partidária única, mas por diferentes caminhos de ingresso, circulação e consolidação na política.
As redes familiares também aparecem em parte dessas trajetórias. Entre as 13 mulheres da direita, sete têm esse tipo de conexão. Seis foram eleitas para o Senado — Mara Rocha (AC), Marina JHC (AL), Rayssa Furlan (AP), Michelle Bolsonaro (DF), Gracinha Caiado (GO) e Teresa Surita (RR) — enquanto Raquel Lyra foi reeleita governadora de Pernambuco.
Os vínculos incluem relações com ex-governadores, parlamentares e prefeitos, como Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro; Gracinha Caiado, esposa de Ronaldo Caiado; Marina JHC, esposa de JHC; e Raquel Lyra, filha de João Lyra Neto. Isso não significa que o vínculo familiar explique, por si só, a eleição dessas mulheres, apenas que as redes políticas familiares estão presentes em uma parcela expressiva das trajetórias analisadas.
Experiência e vínculos das mulheres eleitas à direita

No primeiro turno das eleições de 2026, a direita teve presença expressiva entre as mulheres que chegaram às disputas mais importantes. O voto pode ser majoritariamente feminino e socialmente diverso. As mulheres que conseguem transformar esse apoio em representação chegam à política por meio de trajetórias que envolvem experiência eleitoral prévia, partidos e redes políticas. Trata-se, portanto, de um movimento impulsionado tanto pelo eleitorado quanto pelas estruturas consolidadas do poder político.
