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As vacinas do governo Lula para enfrentar a pressão dos EUA em ano eleitoral

29/01/26

O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende manter a aposta no que considera estratégias essenciais para garantir estabilidade na relação com os Estados Unidos e preservar a tranquilidade do processo eleitoral de outubro de 2026. A avaliação no Palácio do Planalto é que os dois temas estão diretamente conectados. Desde a posse do presidente Donald Trump, há um ano, a principal preocupação nos corredores palacianos passou a ser o risco de a nova configuração em Washington interferir no jogo político doméstico. Esse temor se materializou com a carta enviada por Trump em 9 de julho passado, em que vinculou o tarifaço ao processo que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à prisão.

As chamadas “vacinas” — iniciativas diplomáticas, econômicas e narrativas — buscam evitar que crises internacionais se transformem em passivos eleitorais. Trata-se de uma tentativa de antecipar atritos antes que se convertam em ruídos capazes de fechar canais de diálogo. O desafio, segundo fontes do governo, é calibrar o discurso de altivez e defesa da soberania, dos quais o Brasil não pretende abrir mão, sem excessos que provoquem reações abruptas dos Estados Unidos.

O mais recente telefonema de 50 minutos de Lula para Trump faz parte da estratégia. Havia ansiedade, do lado brasileiro, para que os dois líderes retomassem o contato direto. A leitura no Planalto é que, na atual gestão norte-americana, problemas precisam ser equacionados em altíssimo nível — ou os canais se perdem. Avalia-se que não seria prudente desperdiçar o momentum criado na aproximação entre ambos durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro passado. Por isso, ficou acertado que os dois se encontrariam novamente, em breve, após a viagem de Lula à Índia e à Coreia do Sul (18 a 22/2), ainda que sem data definida.

Na conversa, o presidente brasileiro retomou a proposta feita a Trump em dezembro, quando se falaram pela última vez, antes da ofensiva americana na Venezuela, de fortalecer a cooperação no combate ao crime organizado. O tema ganhou alta sensibilidade na América Latina desde que Trump passou a usá-lo como instrumento de pressão sobre países da região. Nesta semana, Lula foi além: manifestou interesse não apenas em ampliar a parceria contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas, mas também em discutir congelamento de ativos de grupos criminosos e intercâmbio de dados sobre transações financeiras.

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Outro episódio que exigiu resposta cuidadosa foi o anúncio, por Trump, do chamado Conselho da Paz, apresentado em Davos como uma espécie de Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) alternativo —proposta que causou perplexidade em diversas capitais. Sem responder diretamente ao convite para integrar o órgão, Lula demonstrou interesse na ideia, mas sugeriu que sua atuação se restrinja à questão de Gaza e inclua representação palestina. No mesmo movimento, reiterou a defesa de uma reforma ampla da ONU, com ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança, pauta que o Brasil defende há anos e que ganhou força adicional em 2025, durante as presidências brasileiras do G20, do Brics e da COP30. A estratégia permite ganhar tempo enquanto se observa a reação de outros líderes.

Até a última terça-feira (27/1), Lula já havia mantido conversas telefônicas com presidentes e primeiros-ministros de 13 países em pouco mais de 20 dias, além de um encontro presencial com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. As articulações começaram após a ofensiva americana na Venezuela, em 3 de janeiro, que terminou com a captura de Nicolás Maduro, tema recorrente nas conversas.

Na segunda-feira, após quase uma hora de conversa com o presidente francês Emmanuel Macron — diálogo que havia sido adiado —, o Palácio do Planalto divulgou nota conjunta em que ambos afirmaram que iniciativas em matéria de paz e segurança devem estar alinhadas aos mandatos do Conselho de Segurança e aos princípios da Carta da ONU. Não foi uma posição isolada de Lula, mas parte de um alinhamento mais amplo.

Diversificação como estratégia

A diversificação de parceiros comerciais segue a mesma lógica. Daí o empenho pessoal de Lula na conclusão do acordo Mercosul-União Europeia, visto como forma de reduzir a dependência do mercado americano e demonstrar que o Brasil dispõe de alternativas relevantes. Esse será também o tom da visita oficial à Índia, preparada desde o ano passado com a missão precursora do vice-presidente Geraldo Alckmin. A intenção é sinalizar que a relação bilateral mudou de patamar, a exemplo do que ocorreu com China, Japão e outros parceiros. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, vizinho direto dos EUA, virá ao Brasil em abril com a missão de acelerar um entendimento com o Mercosul.

O conjunto de ações adotado pelo Planalto desde o início do segundo mandato de Trump ganhou força após o tarifaço, quando o governo avaliou que os acertos da condução diplomática de Lula — e, sobretudo, os erros da direita ao lidar com a ameaça americana — ajudaram a tirar o Executivo das cordas, preservando sua popularidade. Esse movimento culminou no que o governo considera uma vitória relevante: a suspensão das sanções previstas na Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, episódio visto como potencialmente desestabilizador.

Desde a eleição considerada fraudulenta que manteve Nicolás Maduro no poder, o Brasil adotou outro movimento estratégico: o afastamento gradual do chavismo. O tema é altamente polarizador na política doméstica. Lula voltou a falar com o venezuelano apenas em dezembro, por telefone, para tratar exclusivamente da crise com os EUA. Venezuela e Nicarágua passaram a ser mantidas à distância. Assessores avaliam que isso ajudou a neutralizar tentativas da direita de associar o presidente brasileiro a Maduro.

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Na última terça-feira (27/1), Lula usou o X (ex-Twitter) para relembrar as vítimas do Holocausto e alertar para os riscos do autoritarismo e do ódio — outro flanco considerado sensível por assessores. A pauta do antissemitismo é recorrente entre setores da direita, e novos gestos devem surgir nessa direção.

O que vem pela frente

Outras frentes de atenção incluem o debate sobre excessos das big techs em ano eleitoral e a agenda dos minerais críticos e terras raras. O Planalto quer transformar esses temas em ativos de negociação, e não em novas fontes de pressão externa. Como mostrou o JOTA, a política externa terá papel inédito nesta eleição, e o debate democrático, embora não majoritário, tende a ter alto impacto marginal.

Não está claro se essa estratégia foi desenhada antes mesmo da posse de Trump, como afirmam interlocutores próximos ao presidente. A avaliação interna, contudo, é que, até aqui, tem funcionado. A condução firme, mas pragmática, da relação com os Estados Unidos pode render a Lula pontos decisivos, fortalecendo seu favoritismo e ajudando a garantir a lisura e a tranquilidade do processo eleitoral — objetivo central do governo, segundo fontes ouvidas pelo JOTA.