Há pouco mais de dois anos, escrevi a coluna “Não é a economia, estúpido. Por que o debate econômico está perdendo força nas disputas eleitorais?”, na qual pretendia explorar as razões pelas quais, apesar da boa performance de Joe Biden no âmbito econômico, tais resultados não se refletiam na avaliação dos eleitores quanto ao desempenho da economia. Tal constatação poderia sugerir que os resultados econômicos estavam gradualmente perdendo importância nas eleições[1].
Naquela oportunidade, pude explorar o quanto era alto o nível de dissonância entre o que havia sido feito pela Bidenomics e a percepção dos eleitores, o que era suficiente a afastar a hipótese de que a má avaliação econômica de Biden seria fruto apenas da ação dos republicanos trumpistas.
Recentemente, os economistas Laura Carvalho e Guilherme Klein publicaram o artigo “Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade” no qual pretendem explorar as causas da referida dissonância no contexto brasileiro[2].
Afinal, apesar de o terceiro mandato de Lula apresentar dados econômicos relevantes – queda do desemprego para os menores patamares da série histórica, crescimento do PIB em percentuais superiores às projeções do mercado e à média do G20, redução de pobreza – 42% dos entrevistados na pesquisa Ipsos-Ipec de março afirmaram que a situação econômica do país estava pior que seis meses antes, enquanto apenas 27% disseram que havia melhorado.
Os autores exploram várias explicações, dentre as quais a inflação e o endividamento das famílias, inclusive em razão do papel crescente das bets, apresentando como tese central a de que “o governo Lula 3 entrega uma macroeconomia de resultados respeitáveis, mas não a experiência subjetiva de mobilidade social que transformou o Brasil dos anos 2000″.
Nesse contexto, são sugeridas cinco hipóteses explicativas para o abismo entre o desempenho econômico efetivo e a percepção dos resultados pelos eleitores: “(1) a comparação implícita com os primeiros governos Lula; (2) o nível ainda deprimido da renda após uma década perdida; (3) uma inflação que cedeu, mas em um patamar de preços ainda muito acima do que o consumidor guarda na memória; (4) a transformação cultural produzida pelas redes sociais, que criou padrões elevados de aspiração de consumo; (5) a frustração de uma geração escolarizada que descobriu que o diploma não garante ascensão social.”
As três primeiras explicações estão relacionadas ao fato de que, para fins eleitorais, importa mais a experiência subjetiva do eleitor em relação à economia do que propriamente os resultados econômicos concretos. E tais percepções são formadas a partir de comparações com Lula 1 e Lula 2 – não propriamente com o governo Bolsonaro.
Segundo os autores, apesar da queda da inflação, os preços não voltaram ao que eram em 2019, o que faz com que a maior parte dos brasileiros entenda que a promessa não foi cumprida. Daí a conclusão: “Indicadores macroeconômicos bons não geram, sozinhos, percepção de prosperidade. A experiência subjetiva do custo de vida é o termômetro efetivo e é moldada tanto pelos preços que o consumidor enfrenta quanto pelo padrão de vida que ele considera razoável”.
Já as duas últimas hipóteses explicativas mostram o ressentimento e a desilusão decorrentes das redes sociais e da ausência de oportunidades econômicas. No que toca às redes sociais, apontam os autores que elas criaram uma verdadeira “economia das aspirações”, o que produz efeitos negativos sobre o bem-estar das pessoas, que estão frustradas a partir da comparação social. Além dos efeitos psicológicos indesejáveis, os autores ainda apontam o problema do endividamento, que é consequência desse processo de consumismo desenfreado.
Já no que toca ao desalento de ter diploma e não ter emprego, os autores mostram o quanto é preciso que o crescimento econômico se converta em bem-estar real para a maioria das pessoas, sendo compreensível que elas não se sintam satisfeitas quando não experimentam concretamente os efeitos dos resultados econômicos.
Eu não tenho dúvidas de que as reflexões trazidas por Laura Carvalho e Guilherme Klein são importantes e talvez expliquem, em boa medida, a constante dissonância entre os dados reais da economia e a percepção do eleitor brasileiro. Entretanto, continuo suspeitando de que a principal razão dessa desconexão decorre de uma combinação entre as deficiências e disfuncionalidades do fluxo informacional e a redução crescente das habilidades cognitivas dos eleitores.
Quanto ao fluxo informacional, já tive a oportunidade de mostrar que, no tocante ao conhecimento econômico, há um verdadeiro mercado de ideias no qual nem sempre prevalecem as melhores ideias ou aquelas que apresentam mais aderência à realidade, mas sim aquelas que são dos interesses dos agentes mais poderosos[3].
Tal problema é potencializado pela concentração da mídia, especialmente da mídia econômica, que pode facilmente se tornar um veículo de difusão das ideias a serviço dos grandes interesses, sem maior preocupação com os dados econômicos e sem espaço para qualquer tipo de divergência ou pluralismo. Esse é precisamente o caso brasileiro, como também já explorei em coluna anterior, que tratava da concentração da mídia financeira[4].
Sob essa perspectiva, a primeira causa do problema é a produção, a divulgação e a disseminação do conhecimento econômico, que já correspondem a um primeiro obstáculo para que a população tenha acesso aos dados econômicos de modo fidedigno e sem enviesamentos. Muitos grandes veículos de mídia são avessos a governos de esquerda e obviamente não têm interesse em divulgar dados ou interpretações incompatíveis com suas crenças políticas.
A segunda causa do problema diz respeito à importância das narrativas, uma vez que os dados econômicos são normalmente apresentados por meio de narrativas, que podem se tornar mais importantes do que os próprios dados econômicos, especialmente quando estes não são facilmente acessíveis ou compreensíveis para uma boa parte da população brasileira.
É fundamental, portanto, situar o problema igualmente no contexto das discussões da Economia das Narrativas. Com efeito, como já tive oportunidade de alertar[5], o ponto mais determinante para o potencial de disseminação de uma narrativa pode ser o grau de adesão à constelação de narrativas dos agentes a quem interessa a sua difusão, a qual é profundamente marcada por ideologias e valores.
Com a internet e as redes sociais, houve certa subversão dos protagonistas na difusão de narrativas, já que os cientistas e experts, por um lado, e a grande mídia, por outro, hoje concorrem, respectivamente, com influenciadores e plataformas digitais de mensagens ou redes sociais. Na verdade, hoje já chegamos ao estágio em que influenciadores econômicos e políticos são criados por inteligência artificial, com um enorme poder de manipulação das pessoas[6].
É fundamental entender que a difusão das narrativas é também um exercício de poder na disputa pela compreensão do mundo, o que já seria extremamente importante. Diante da reflexividade do conhecimento econômico, é também uma disputa pelo modo como as pessoas se comportam e pelo modo como a própria economia pode ou deve funcionar.
Ainda que possa haver alguma diversidade nas narrativas que interpretam e apresentam os dados econômicos no Brasil, a sua difusão não necessariamente se dá de forma plural. O que temos visto é que os modelos de monetização das plataformas digitais não privilegiam os conteúdos em razão da qualidade, mas sim do engajamento: como conteúdos mentirosos e desinformativos geram mais emoções, tendem a ser mais divulgados.[7] Tal aspecto prejudica consideravelmente qualquer debate que deva se basear em fatos e dados, aí incluído o debate econômico.
Entretanto, a causa final do problema está no eleitor, que, além de não entender o fluxo informacional da internet, está mergulhado em um processo crescente de polarização política. Isso dificulta ou mesmo impede a deliberação racional com base em evidências, tornando o eleitor vítima de suas emoções e vieses de confirmação.
Assim, a solução do problema apontado envolve igualmente um conjunto de esforços que vão desde a produção e divulgação do conhecimento econômico até a sua compreensão adequada pelo destinatário final. Na ausência de iniciativas nesse sentido, o que se espera é o aumento crescente da dissonância apontada e o desvio da escala de prioridades do eleitor para assuntos que, como os relacionados aos costumes, podem ser compreendidos e discutidos de forma mais fácil e acessível.
Passado algum tempo do meu primeiro artigo sobre o tema[8], continuo entendendo que é urgente reinserir o debate econômico sério e responsável nas discussões políticas e eleitorais, seja em razão da importância das questões econômicas para as democracias, seja em razão do risco de termos eleições cada vez mais irracionais e que ainda podem privilegiar governos populistas e sem qualquer pauta séria para os destinos de suas nações.
[1] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/nao-e-a-economia-estupido
[2] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/05/por-que-o-desempenho-economico-de-lula-3-nao-se-converte-em-popularidade.shtml
[3] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/existe-um-mercado-de-ideias
[4] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/mercado-de-ideias-economicas
[5] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/ainda-sobre-a-reacao-do-mercado-as-declaracoes-de-lula
[6] Ver episódio do podcast Direito Digital “Inteligência Artificial nas eleições”. https://www.youtube.com/watch?v=eMiYT7K_rp8
[7] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/a-delicada-questao-da-monetizacao-dos-negocios-de-divulgacao-de-conteudos
[8] https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/constituicao-empresa-e-mercado/nao-e-a-economia-estupido
