Falar dos rins é falar de coração. Não apenas no sentido simbólico, de “falar com amor”, mas, também, no sentido biológico. Rim e coração formam um eixo indissociável – uma engrenagem cuja falha em um lado repercute, quase inevitavelmente, no outro. Mais do que isso: falar de saúde renal é falar de saúde como um todo. De risco cardiovascular. De longevidade. De sustentabilidade do sistema de saúde.
A Doença Renal Crônica (DRC) é uma das condições mais desafiadoras da medicina contemporânea. Silenciosa, progressiva e subdiagnosticada, atinge cerca de 10% da população mundial. No Brasil, o avanço do diabetes e da hipertensão sustenta uma curva crescente de casos.
O diabetes, que já acomete 16,8 milhões de brasileiros, é hoje a principal causa de DRC. Até 40% das pessoas com diabetes desenvolverão algum grau de comprometimento renal ao longo da vida. A exposição prolongada à hiperglicemia desencadeia processos inflamatórios e fibrosantes que deterioram as estruturas renais; mas a história não termina nos rins.
À medida que a função renal se perde, o risco cardiovascular aumenta. Pacientes com DRC apresentam probabilidade maior de infarto, insuficiência cardíaca e morte prematura. A doença não é apenas uma questão renal, mas, sim, um potente amplificador de risco cardiovascular.
Entretanto, algumas notícias nos trazem esperança. Exames simples, como os de urina e creatinina no sangue, podem detectar alterações renais antes mesmo do surgimento de sintomas, quando a intervenção terapêutica tem maior chance de modificar o desfecho da doença. São testes acessíveis, disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda subutilizados.
Durante décadas, o cuidado concentrou-se nas fases finais da doença. Nos últimos anos, no entanto, avanços terapêuticos redesenharam o cuidado cardiorrenal. Além dos clássicos inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (ECA) e bloqueadores do receptor de angiotensina, surgiram os inibidores de SGLT2 e, recentemente, a finerenona – que demonstrou reduzir a progressão da DRC e diminuir eventos cardiovasculares em pacientes com doença renal associada ao diabetes tipo 2.
São terapias capazes de alterar trajetórias clínicas, postergar a necessidade de diálise e reduzir hospitalizações. No entanto, uma recente decisão do Governo, de não incorporar a finerenona ao SUS, reacendeu um debate: como equilibrar sustentabilidade financeira e o acesso à inovação?
Em um país onde a maioria da população depende do sistema público de saúde, restringir o acesso a terapias com evidência de benefício cardiorrenal impõe uma reflexão ética. O custo da não incorporação pode se traduzir, no médio prazo, em mais pacientes evoluindo para diálise, mais internações e maior mortalidade. Ao mesmo tempo em que atuamos na crise da diálise que acomete o SUS e necessita de ações urgentes, precisamos também deslocar o foco para antes desse ponto. O setor enfrenta um subfinanciamento histórico, unidades sobrecarregadas e dificuldade de expansão. Prevenir progressão não é apenas boa medicina – é política pública inteligente.
No dia 12 de março, celebramos o Dia Mundial do Rim, um dia que não deve ser apenas uma data de conscientização. Deve ser um chamado à responsabilidade coletiva. Rastrear com dosagem de creatinina e exame de urina. Controlar o diabetes e a hipertensão. Incorporar inovação com responsabilidade. Investir em prevenção. E garantir o financiamento adequado da terapia renal substitutiva.
Inovação sem acesso é promessa incompleta. Diante do impacto humano, social e econômico da DRC, não podemos adiar decisões que podem salvar rins, transformar vidas – e preservar o futuro do nosso sistema de saúde.
