Vivemos sob o regime de permanente breaking news. A política se realiza hoje em meio a uma dieta digital feita de alertas, cortes, indignações instantâneas e microdoses de dopamina distribuídas ao longo do dia. A cada hora, um escândalo. A cada minuto, um enquadramento. A cada segundo, uma tentativa de capturar nossa atenção antes que a próxima notificação nos arraste para outro incêndio.
Essa dinâmica é potencializada pelas plataformas digitais e por seus magnatas, a partir de uma lógica algorítmica opaca, afetivamente polarizadora e orientada à retenção da audiência. Como já nos ensinaram Giuliano da Empoli, Max Fisher e tantos outros autores, o caos deixou de ser ruído do sistema: tornou-se método político, ambiente de negócios e tecnologia de poder.
É nesse cenário que os processos políticos, em geral, e os eleitorais, em particular, se realizam. No caso brasileiro, o quadro é ainda mais agudo porque o eleitorado se divide em dois grandes blocos difusos: antipetistas e anti-antipetistas. Dentro deles, emergem duas identidades políticas coletivas bastante consolidadas, que funcionam como minorias majoritárias e hegemonizam, ainda que de forma contingente e provisória, o protagonismo de seus respectivos campos: bolsonarismo e lulismo.
Por isso entramos na corrida eleitoral com uma disputa tão acirrada. De um lado, Lula. De outro, Flávio Bolsonaro. Dois sobrenomes altamente conhecidos (Lula da Silva e Bolsonaro), ambos com mais de 93% de conhecimento; pisos elevados de voto, superiores a 43% nas simulações de segundo turno; tetos baixos, marcados por rejeições acima de 40%; e diferenças sempre dentro da margem de erro dos principais institutos. Uma antecipação radical da dinâmica de segundo turno, do voto útil e da guerra de rejeições, deslocada para a pré-campanha muitos meses antes das urnas.
Essa moldura é fundamental para compreender o que ocorreu no debate público brasileiro nos últimos dez dias.
Recordemos.
Há pouco mais de uma semana, Flávio Bolsonaro saiu em carreira para Washington. Aguardou de prontidão em seu hotel até receber um sinal da Casa Branca para que, ao lado do irmão Eduardo e de seu escudeiro Paulo Figueiredo, pudesse ser recebido por Donald Trump.
O propósito era evidente: virar a pauta política doméstica que pesava sobre sua candidatura desde a divulgação das conversas com Daniel Vorcaro. O caso Dark Horse, repleto de opacidades, versões contraditórias e perguntas sem resposta, havia deixado o senador na defensiva. Era preciso produzir outro assunto, outro palco, outra imagem.
E a empreitada, num primeiro momento, teve êxito.
No dia 26 de maio, Flávio conseguiu a foto ao lado do presidente norte-americano. Com ela, ergueu a cortina de fumaça que buscava. O debate se deslocou da relação com Vorcaro para a relevância, os propósitos e os efeitos da viagem aos Estados Unidos. O escândalo do Banco Master não desapareceu, mas foi empurrado para um segundo plano, em estado residual, como registrou o Boletim Especial do Instituto Democracia em Xeque.
A partir daí, começou a montanha-russa da disputa pelo enquadramento narrativo da viagem.
O primeiro momento foi de equilíbrio. Esquerda e direita disputaram o sentido da foto de Flávio na Casa Branca. Para a direita, tratava-se de uma demonstração de prestígio internacional, de acesso ao centro do poder mundial e de capacidade de interlocução com Trump. Para a esquerda, era uma visita improvisada, submissa, destinada a criar uma cortina de fumaça para o caso Vorcaro e a abrir flancos graves em matéria de soberania nacional.
Na quinta-feira, 28 de maio, veio a segunda curva da montanha-russa. Com a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado dos EUA, a extrema direita partiu para a ofensiva. O debate sobre a viagem de Flávio foi reenquadrado em terreno favorável ao clã: segurança pública. A pauta deixava de ser o banqueiro encrencado e passava a ser o enfrentamento ao crime organizado. A base bolsonarista se reanimou. Flávio saía da defensiva e tentava se apresentar como interlocutor capaz de provocar uma resposta dura dos Estados Unidos contra as facções brasileiras.
Mas essa designação não foi recebida de forma inocente pelos eleitores pendulares. O Painel Narrativo do Instituto DX, de 1º de junho, mostrou uma percepção mais sofisticada e ambivalente: parte dos entrevistados admitia que a medida poderia, no limite, ajudar no combate ao crime organizado; mas também desconfiava dos reais interesses norte-americanos. “Trump e os EUA não fazem nada por caridade”, resumiram alguns participantes. Amazônia, petróleo, minérios e Pix apareciam como possíveis objetos de cobiça da Casa Branca.
Ainda assim, para Flávio, a situação parecia manejável. Discutir segurança pública era muito melhor do que discutir Vorcaro. Ter sua militância novamente animada era melhor do que vê-la acuada. Manter Dark Horse no passado recente parecia, naquele momento, uma vitória possível.
Quando tudo parecia caminhar a favor do senador, a montanha-russa voltou a surpreender.
Na madrugada de terça-feira, 2 de junho, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) anunciou uma nova ofensiva tarifária contra produtos brasileiros de 25%. Junto a ela, os Estados Unidos incluíram o Brasil em uma lista de países sob suspeita de “falha no combate ao trabalho forçado”, abrindo a possibilidade de tarifa adicional de mais 12,5%. Mais do que o impacto econômico e comercial, a medida produziu um efeito político imediato: pareceu confirmar, aos olhos de parte importante da opinião pública, que a Casa Branca não estava interessada na segurança cotidiana dos brasileiros, mas em obter vantagens econômicas, comerciais e geopolíticas.
O detalhe mais sensível veio com as reiteradas referências críticas ao Pix no relatório norte-americano. Aquilo que no Painel Narrativo do DX aparecia como hipótese improvável e quase paranoica – uma eventual tentativa dos EUA de pressionar o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos – ganhava concretude política. Os participantes haviam sido claros: mexer no Pix seria inadmissível. Quando soberania deixa de ser abstração e passa a significar dinheiro na conta, pagamento no comércio, transferência para a família e autonomia tecnológica nacional, o tema muda de escala.
Como se não bastasse, a ofensiva veio acompanhada de outros gestos políticos do Departamento de Estado. Primeiro, Marco Rubio enquadrou o Brasil, em fala no Senado norte-americano, ao lado de países apresentados como adversários da América. Depois, a indicação de um novo embaixador dos EUA no Brasil, feita sem o respeito da liturgia diplomática esperada, reforçou a percepção de hostilidade. O perfil escolhido –um deputado republicano da Flórida, filho de cubanos, pertencente à ala mais ruidosa do MAGA e próximo a Rubio –agravou a leitura de que Washington pretende tratar o Brasil menos como parceiro soberano e mais como território em disputa.
À agressividade do tarifaço, somaram-se soberba, desprezo pelo governo brasileiro e desrespeito à soberania nacional. O Brasil foi tratado como se ainda coubesse na velha caricatura da republiqueta bananeira.
A cereja do bolo veio de Trump. Pouco depois, o presidente norte-americano publicou a foto da visita de Flávio ao Salão Oval. O gesto carimbou duas coisas ao mesmo tempo. De um lado, o interesse explícito de Trump em se imiscuir no processo eleitoral brasileiro, apoiando o filho de Jair. De outro, a responsabilização de Flávio pela nova escalada tarifária.
A cortina de fumaça que deveria esconder Vorcaro começava a sufocar Flávio.
O pré-candidato do PL tentou desesperadamente surfar a narrativa de que “a culpa do tarifaço é de Lula”. E arrastou para esse enquadramento outros pré-candidatos da oposição, especialmente aqueles que endossaram a leitura de que o governo brasileiro seria responsável pela reação norte-americana. O problema é que a narrativa soou descabida demais, até mesmo para um debate público acostumado ao absurdo.
A surra nas redes foi expressiva. Segundo o Boletim Especial do DX, o total de menções que atribuíam culpa a Flávio pelas tarifas foi quase dez vezes maior do que aquelas que responsabilizavam Lula. O monitoramento da Palver corroborou a goleada nos aplicativos de mensagem: 81% das mensagens analisadas atribuíam ao senador participação direta ou indireta nas tarifas propostas pelos EUA.
Esses números sugerem algo politicamente relevante: os filhos de Jair, com o alinhamento subordinado de setores da direita, conseguiram o prodígio de unificar parcelas que raramente caminham juntas. O terço de eleitores de esquerda, a maior parte dos independentes que não se identificam nem com Lula nem com Bolsonaro e até setores de direita não bolsonarista passaram a convergir em uma percepção: o “mérito” pelo novo tarifaço pertence ao clã Bolsonaro.
A prova do desconcerto foi a dificuldade dos principais atores digitais da direita em fixar uma narrativa única. Desde o anúncio das tarifas, o campo conservador ficou na defensiva, dividido entre atacar a política externa de Lula e tentar separar o tarifaço da imagem de Flávio. Nenhuma das duas frentes pegou.
A esquerda, por sua vez, surfou a onda. Conseguiu tornar dominante o enquadramento que associa a defesa do Pix e a crítica ao tarifaço ao “entreguismo” de Flávio Bolsonaro em troca do apoio de Trump na eleição de outubro. A alcunha “Tariflávio” viralizou porque condensou, em uma palavra, a acusação política: tarifa, Flávio, Trump, soberania e traição aos interesses nacionais.
Há um elemento adicional que ajuda a explicar a adesão imediata a essa leitura. Eduardo Bolsonaro já estava identificado, na memória recente do debate público, como responsável pelo tarifaço anterior de 50%, após suas gestões na Casa Branca. Não satisfeito, ainda defendeu o sistema norte-americano Zelle como alternativa ao Pix, misturando sabujice com notável falta de inteligência política. Ajudou, assim, até os mais incrédulos a colocarem o novo tarifaço no colo de seu irmão.
Flávio conseguiu, portanto, virar a pauta de sua relação com Vorcaro. Mas não da maneira que imaginava.
O caso Dark Horse segue em estado de latência. Adormecido, mas não esquecido. O Painel Narrativo do DX mostrou também que eleitores ainda cobram documentos, explicações e coerência nas versões. O próprio Tarcísio de Freitas, aliado incômodo, afirmou esperar que Flávio desse explicações. Novas operações da Polícia Federal, novos vazamentos ou novas reportagens investigativas, como a do The Intercept, podem reavivar a demanda por esclarecimentos.
O diabo, para Flávio, é que a cortina de fumaça produzida na Casa Branca saiu de controle. A montanha-russa narrativa descarrilou. O enquadramento hoje dominante é profundamente desfavorável ao senador: não apenas porque o associa a Trump, mas porque o associa ao custo concreto de uma ofensiva contra o Brasil, contra o Pix, contra setores da economia e contra a soberania nacional.
O que começou como tentativa de escapar do caso Vorcaro virou risco de carregar no peito o selo do entreguismo. O que deveria projetá-lo como interlocutor internacional acabou reforçando sua imagem de dependência externa. O que parecia cortina de fumaça para esconder um escândalo pode se transformar em fumaça tóxica para sua própria candidatura.
Pode ser que, nos próximos dias, novos movimentos recoloquem a montanha-russa nos trilhos e devolvam algum oxigênio ao senador. Pode ser que a direita encontre outra pauta, outro inimigo, outro escândalo, outra distração. Na política digital, a próxima notificação sempre ameaça apagar a anterior.
Mas convém não demorar demais.
Flávio foi a Washington buscar ar, mas pode terminar sufocado pela própria fumaça.
