Quem é a geração que pode autocratizar o Brasil? Na última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, um dado chamou atenção na faixa de eleitores de 16 a 24 anos: pouco mais de 24% dos votantes indicam que escolheriam no primeiro turno o candidato Renan Santos, do recém-fundado Missão, partido nascido das costelas do Movimento Brasil Livre (MBL), cuja mobilização de rua foi fundamental para a queda de Dilma Rousseff em 2016 e posterior ascensão do bolsonarismo.
Não vejo no Missão, porém, disposição para dar um golpe de Estado. Trata-se apenas de um partido de direita radical, ou seja, aquela que defende a democracia eleitoral, mas traz em seu seio propostas travestidas de liberalismo que, no entanto, privam a população de direitos fundamentais para o exercício da cidadania. Enfim, o Missão busca um cenário que promoveria uma autocratização de fato no país.
É a confraria dos red pills, que, sob a desculpa de enfrentar uma suposta tirania do Estado, abre espaço para todo tipo de barbaridade contra a coisa pública e a esfera privada também, como ficou evidente nas falas de Santos contra o PL da Misoginia, que recebeu o apoio até mesmo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato da extrema direita raiz, a que é golpista e entreguista até o talo.
Entre homens, a intenção de voto de Santos chega a 7,5%, contra 1,6% entre mulheres. Não há o recorte de idade por gênero, mas temos aqui um retrato da geração autocracia, aqueles que votam pela retirada de direitos, rumo a uma autocratização lenta, gradual e segura, ou até mesmo preferem a opção direta, encarnada na figura do filho 01 de Jair Bolsonaro (PL), que lidera na faixa entre 16 e 24 anos com 37% dos votos, assim como entre os eleitores que têm entre 25 e 34 anos, com quase 42% dos votos.
Seriam os nascidos dos anos 1990 para cá a geração que vai enterrar a ordem constitucional de 1988? Seja de origem rica ou pobre, eles nasceram num país com democracia que se imaginava consolidada, com crescimento econômico medíocre, mas com políticas sociais em expansão. No lugar do secularismo que a industrialização da era nacional-desenvolvimentista traria, temos o retorno da religiosidade na esfera pública, não somente pelos lábios dos pastores evangélicos, mas também por católicos que venderam sua alma às teses bolsonaristas.
A geração autocracia é uma ironia com o otimismo-realista esboçado pela série de reportagens-ensaios desenvolvidos pelo meu colega de FGV José Henrique Bortoluci, chamada Geração Democracia, em que foram exploradas histórias de brasileiros que, como ele e eu, nascemos nos anos de transição da ditadura militar para a Nova República. A mesma geração que pariu uma figura política como Renan Santos, cujo comprometimento com a Constituição de 1988 e a democracia deixo para os leitores avaliarem.
Ironicamente, o jovem que se dispõe a votar no candidato do Missão é o mesmo que reivindica maior proteção do Estado ao, por exemplo, apoiar o fim da jornada 6×1, o que angaria 82% de apoio na faixa de 16 a 24 anos. Nascidos a partir de 2002, graças à agenda social da Nova República, sentem com menor força os legados de desigualdade oriundos da era colonial e que se mantiveram vivos durante o Império e boa parte da República.
No entanto, carecem de vinculação com noções mais sólidas de identidade nacional — cresceram no rescaldo da globalização econômica, vivenciando ainda sua dimensão cultural, que tornou comum torcer por times estrangeiros. Os Enzos nunca viram o país vencer uma Copa do Mundo, mas se lembram da humilhação do 7 a 1. Quem sabe aí não reside um complexo de vira-lata que não importa com a possibilidade de virarmos uma colônia de fato dos EUA, como sugere a fala de Flávio Bolsonaro na CPAC, conferência conservadora dominada pelo trumpismo, durante o último fim de semana.
Em tempo: a coluna anterior, publicada em 23 de março, avaliava como decisiva a candidatura de Ratinho Júnior ao Planalto pelo PSD como essencial para provar se o eleitorado quer realmente uma terceira via, crítica a Lula, mas sem descambar para o antipatriotismo. Horas depois de sua publicação, o pretenso candidato anunciou sua desistência. Nesta segunda-feira (30), o presidente do partido, Gilberto Kassab, anuncia a candidatura de Ronaldo Caiado, líder histórico ruralista que, como governador de Goiás, assinou um acordo inconstitucional com os Estados Unidos para a exploração de terras raras.
Pelo visto, a geração autocracia conta com os reacionários e entreguistas da velha guarda para enterrar não somente a ordem constitucional atual, mas a própria soberania do Brasil e sua integridade territorial.
Cresci vendo as eleições de Fernando Henrique Cardoso e Lula. Os que hoje desfrutam da infância, coitados, correm o risco de ver Flávio Bolsonaro e Renan Santos com a faixa presidencial em 2027 e, quiçá em 2030, Tarcísio de Freitas e Ratinho Júnior. Cada geração tem os líderes que merece.
