Recentemente, especialistas apontaram o retorno do fenômeno climático El Niño. Diante de um mundo mais aquecido, o evento pode potencializar secas, ondas de calor, incêndios florestais e tempestades extrema. Mais do que um evento isolado, o El Niño integra um conjunto de fenômenos intensificados pelas mudanças climáticas.
Já se sabe que a crise climática, por ser um contexto complexo e marcado por incerteza, impacta diretamente os ambientes políticos, regulatório e de negócios no Brasil. Por isso, é fundamental que as instituições públicas desenvolvam maior capacidade de previsão sobre a realidade local, antecipando riscos e identificando oportunidades.
É que, com informações mais qualificadas é possível orientar para uma tomada de decisão mais estratégica.
Dessa forma, para enfrentar a crise climática, além de investimento em tecnologias mais sustentáveis, é preciso modificar a forma de pensar e implementar políticas públicas. Em regra, as ações políticas desenvolvidas hoje são pautadas em respostas emergenciais, ao invés de se construir um modelo de governança eficiente que seja capaz de incorporar diversas variáveis aos processos decisórios.
Para isso, algo relevante deve ser considerado.
O tomador de decisão, formulador de políticas públicas é, antes de tudo, um indivíduo que, apesar de buscar o bem-estar coletivo, também é influenciado por interesses pessoais, motivações e vieses ao tomar decisões. Dessa forma, percebe-se que esses fatores podem exercer influência significativa sobre determinadas políticas públicas. Como instituições e governos raramente investigam ou coletam informações sobre os vieses de seus tomadores de decisão, muitas vezes não se conhece o grau em que os resultados das políticas públicas podem estar condicionados por essas influências.[1]
Sendo assim, evidencia-se um típico problema de desconto hiperbólico: os custos da ação climática são imediatos e politicamente sensíveis, enquanto os benefícios das medidas preventivas tendem a se manifestar apenas no longo prazo.
Por isso, os formuladores de políticas, tomadores de decisões, acabam sendo induzidos a privilegiar respostas reativas, em detrimento de políticas estruturantes voltadas à prevenção, adaptação e mitigação climática.
A consequência disso é que mesmo diante de evidências científicas robustas, a tomada de decisão pública tende a priorizar agendas com maior retorno político no presente. Ou seja, a atuação dos gestores públicos atuais tende a estar associada aos ciclos políticos de curto prazo, uma vez que seus resultados costumam apresentar maior visibilidade no contexto da promoção política.
Este texto tem como objetivo fazer uma reflexão em torno de uma mudança necessária na formulação de políticas públicas: como construir um Estado capaz de agir preventivamente mesmo quando os custos políticos são imediatos, mas os benefícios aparecem apenas no futuro?
De acordo com relatório Ipsos publicado neste mês, embora a preocupação climática permaneça presente – em média, 59% das pessoas em 31 países afirmam que o seu país deveria fazer mais na luta contra as alterações climáticas – os riscos mais imediatos são vistos como prioridades maiores.
Na pesquisa “O que preocupa o mundo”, a preocupação com as alterações climáticas está em 11º lugar, atrás de preocupações mais tangíveis e imediatas, como a criminalidade, o desemprego e a inflação.
Ora, se a própria percepção da sociedade não é de urgência climática, é provável que os tomadores de decisão, também sujeitos a vieses cognitivos e heurísticas, enfrentem dificuldades semelhantes para reconhecer a dimensão e a urgência do problema.
Para se tentar reduzir os efeitos dessas distorções cognitivas na formulação de políticas públicas climáticas, muito se fala na utilização de estratégias de arquitetura da escolha. Esse tipo de mecanismo pode contribuir para estruturar decisões mais racionais, transparentes e orientados por evidências, na perspectiva de incentivar escolhas públicas mais eficientes. [2]
Nesse contexto, é possível dizer que a crise climática não é apenas um desafio ambiental, mas um problema público complexo. A dificuldade central está na incapacidade institucional de transformar conhecimento, dados e informações em decisões públicas de longo prazo.
Portanto, embora os entes públicos brasileiros reconheçam a gravidade da crise climática, já não é possível enfrentar esse problema com os modelos decisórios atuais. Torna-se necessário transformar a lógica que orienta a tomada de decisão no Estado. E logo.
IPSOS. The Ipsos People and Climate Change Report 2026. 2026. Disponível em: Ipsos. Acesso em: 19 maio 2026.
LEAL, Cristiana Cerqueira; et. al.; Nudging e Arquitetura da Escolha: Perspectivas e Desafios. Rev. adm. contemp. 26 (05). 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2022220098.por . Acesso em 22 de maio de 2026.
TABAK, Benjamin Miranda; AMARAL, Pedro Henrique Rincon. Vieses cognitivos e desenho de políticas públicas. Revista brasileira de políticas públicas, [s. l.], v. 8, n. 2, p. 472–491, 2018.
WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). WMO: Likelihood increases of El Niño. Geneva, 24 abr. 2026. Disponível em: WMO. Acesso em: 20 maio 2026.
[1] TABAK, Benjamin Miranda; AMARAL, Pedro Henrique Rincon. Vieses cognitivos e desenho de políticas públicas. Revista brasileira de políticas públicas, [s. l.], v. 8, n. 2, p. 472–491, 2018.
[2] LEAL, Cristiana Cerqueira; et. al.; Nudging e Arquitetura da Escolha: Perspetivas e Desafios. Rev. adm. contemp. 26 (05). 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2022220098.por . Acesso em 22 de maio de 2026.
