Dados inéditos do INCT-ReDem sobre percepções de democracia revelam um paradoxo que define o momento político brasileiro: população e deputados federais convergem nos fundamentos procedimentais da democracia, mas divergem profundamente em seu conteúdo social e redistributivo.
Esta fratura não separa democratas de autoritários, mas diferentes visões sobre o que a democracia deve ser e a quem ela deve servir.
O consenso que existe
A pesquisa, realizada com 1.504 brasileiros e 170 deputados federais entre fevereiro e agosto de 2025, mostra forte alinhamento nos pilares básicos da democracia liberal.
Eleições livres e justas são consideradas essenciais por 78,5% da população e 87,1% dos deputados. Igualdade perante a lei recebe 78,0% e 81,8% de apoio, respectivamente. Liberdades fundamentais — imprensa, expressão, oposição — são amplamente valorizadas por eleitores e parlamentares de todos os espectros ideológicos.
Este consenso procedimental é importante: garante a estabilidade das regras do jogo democrático. A disputa política brasileira não gira em torno da aceitação do regime democrático em si, mas sobre seu sentido e finalidade.
A ruptura na dimensão social
Os maiores desalinhamentos surgem precisamente quando o tema é justiça social. Enquanto 73,1% da população considera proteção social essencial para a democracia, apenas 56,5% dos deputados concordam — um gap de 16,6 pontos percentuais. Na equidade econômica, a distância é semelhante: 64,3% versus 47,6%.
Quando analisamos médias em escalas padronizadas (0 a 1), o padrão se confirma de forma contundente.

Impressionantes 27,3 pontos percentuais separam as expectativas cidadãs das posições parlamentares na dimensão social — o maior desalinhamento observado. A população alcança média de 0,793 enquanto deputados registram apenas 0,520. Este não é um acidente estatístico, mas reflexo de posições ideológicas profundamente enraizadas sobre o papel do Estado e os limites da igualdade.
O liberalismo seletivo da extrema direita
A análise por posicionamento ideológico revela o fenômeno mais intrigante: deputados de extrema direita registram alta adesão a eleições livres e liberdade de imprensa, mas apresentam o maior gap social em relação à sua própria base eleitoral.

O gráfico mostra claramente que na extrema direita, o gap atinge +0,217 — população mais exigente que deputados em 21,7 pontos percentuais na escala normalizada. Enquanto eleitores de extrema direita mantêm média de 0,684 na escala social, seus representantes registram apenas 0,467.
Trata-se do que denominamos “liberalismo seletivo”: defesa de liberdades quando beneficiam grupos majoritários, mas rejeição quando protegem vulneráveis ou exigem redistribuição. Na direita tradicional (não extrema), o gap é menor (+0,114), mas ainda significativo.
Na esquerda, observa-se o padrão inverso: deputados são mais exigentes que sua base na dimensão social (gaps negativos de -0,115 e -0,168), sugerindo alinhamento progressista entre representantes e representados.
Perfis de democratas: a especificidade brasileira
A aplicação da metodologia de Kriesi et al. (2016) permite classificar cidadãos e representantes em cinco tipos de democratas. Os resultados revelam a especificidade brasileira:

Três achados se destacam. Primeiro, 42,4% dos brasileiros são democratas multidimensionais (integram todas as dimensões) — versus apenas 7,3% na Europa. Segundo, considerando todos que incluem dimensões sociais e/ou participativas, temos 65% com visões substantivas da democracia. Terceiro, há proporção preocupante (32,2%) que não valoriza fundamentos mínimos, superior aos 21,9% europeus.
Entre deputados, chama atenção a maior concentração de liberais básicos (11,8% vs. 2,9% população) — perfil que valoriza apenas procedimentos, sem compromisso com dimensões redistributivas. Este perfil é quatro vezes mais comum no Congresso do que na sociedade.
Implicações para a representação
Essas divergências têm consequências diretas para a qualidade democrática. Quando parlamentares — especialmente de direita — divergem significativamente de seus eleitores sobre justiça social, a democracia representativa enfrenta crise de legitimidade. A população demanda mais do que eleições limpas e liberdades formais; ela espera resultados substantivos em termos de redução de desigualdades e proteção social.
O “liberalismo seletivo” da extrema direita parlamentar representa risco específico. Ao valorizar apenas a dimensão competitiva da democracia, ignorando salvaguardas institucionais e proteção de minorias, esses parlamentares endossam concepção empobrecida do regime — uma que pode deslizar para autoritarismo majoritário quando conveniente.
Além disso, a fragilidade normativa — com um terço da população não valorizando fundamentos básicos — sugere que as crises sucessivas da última década (impeachment, polarização, pandemia, ataques às instituições) deixaram marcas profundas na cultura política nacional.
A democracia em disputa
Os dados do INCT-ReDem mostram que a democracia brasileira está menos ameaçada em seus fundamentos procedimentais do que fragmentada em suas concepções substantivas. O consenso sobre eleições e liberdades permanece robusto. O que está em disputa é o conteúdo social da democracia — sua capacidade de promover igualdade e redistribuir recursos.
Esta disputa tem consequências práticas para milhões de brasileiros cujo acesso a direitos depende de políticas redistributivas. Quando parlamentares de direita divergem dramaticamente de seus próprios eleitores sobre essas questões, compromete-se a capacidade do sistema de responder a expectativas populares.
O desafio contemporâneo não é defender a democracia contra ameaças externas, mas disputar seu significado interno. A nova fronteira ideológica não separa democratas de autoritários, mas diferentes visões sobre o que a democracia deve priorizar. A questão crítica não é mais “você apoia a democracia?”, mas sim “qual democracia você defende?”.
Compreender essa fronteira — e as assimetrias representacionais que ela produz — é essencial para qualquer projeto político que aspire à legitimidade no Brasil do século 21. Entre a desvalorização dos fundamentos e a demanda por democracia substantiva, nossa cultura política se encontra em encruzilhada decisiva.
Nota metodológica: Pesquisa INCT-ReDem com 1.504 brasileiros (fevereiro/2025) e 170 deputados federais (agosto/2025). Metodologia: Kriesi, Saris e Moncagatta (2016), adaptada por Ribeiro e Rocha (2025).
