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Resiliência ESG frente aos riscos geopolíticos

02/02/26

O crescimento das transformações geopolíticas em todo o mundo está contribuindo para aumentar as turbulências econômicas, políticas e as mudanças regulatórias, afetando cadeias produtivas, gerando incertezas e ameaçando a continuidade de negócios, além de incrementar o risco das corporações que assumiram responsabilidades ambientais, sociais e de governança (ESG).

Se é verdade que as crises remodelam os negócios, o papel da geopolítica ganha ainda mais importância, uma vez que é apontada como um dos desafios críticos da próxima década. A formulação de seu conceito já atravessou quase um século. Inicialmente foi introduzida por Rudolf Kjellén, cientista conservador sueco, no início do século 20, para tratar as relações entre o poder político e o espaço geográfico, mas foi abandonada na Segunda Guerra Mundial por ter adquirido um peso ideológico.

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O conceito foi retomado na década de 1990, preocupando-se “com o discurso político entre atores internacionais resultante de todos os fatores que determinam a importância política e econômica da localização geográfica de um país”, explica o professor norueguês Ole Gunnar Austvik, da Escola de Governo de Harvard.

Já o risco geopolítico engloba mudanças nas estruturas políticas, econômicas, sociais e de segurança dos países e de empresas. Como será a nova ordem mundial, que desconsidera os pilares do multilateralismo e do Direito Internacional? Para a consultoria Eurasia, “a capacidade de compreender, avaliar e antecipar riscos geopolíticos deixou de ser opcional e tornou-se essencial”.

Neste ano, o encontro do Fórum Econômico Mundial, em Davos, confirma essa tese. O risco geopolítico ganhou um protagonismo que nunca teve, superando até outras urgências globais, como a crise climática. O encontro expressou, ainda, que o mundo está diante de transformações e da busca de um novo equilíbrio geopolítico. Houve até mesmo um certo ceticismo, expresso na fala do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney: “Enfrentamos o mundo ativamente, como ele é, sem esperar por um mundo [ideal] que desejamos que seja”.

Voltando no tempo, as tensões da geopolítica já estavam no ar durante a Guerra Fria, que terminou com a dissolução da União Soviética em 1991 e a consolidação de uma nova ordem mundial. Mas nos últimos anos, os riscos geopolíticos voltaram a crescer com a invasão da Ucrânia pela Rússia, com os conflitos armados na Faixa de Gaza, Cisjordânia e Iêmen, além das conflagrações no Congo, Sudão e Somália e na vizinha Venezuela. As alianças mundiais sofreram uma turbulência e a confiança deu lugar ao desafio de superar um sistema vulnerável e construir novas pontes.

Aumentando a pressão sobre a crise mundial está o crescimento mais lento da economia previsto no relatório da ONU “Situação e Perspectiva da Economia Mundial 2026” (WESP-2026). De acordo com o documento, a produção global deve ficar em 2,7% este ano, sendo inferior à média de 3,2% registrada durante a pandemia, o que inquieta ainda mais o cenário mundial. No relatório, as tensões geopolíticas, desastres climáticos e fragmentação comercial constituem as principais perturbações econômicas.

Para as empresas comprometidas com os pilares ESG, três grandes desafios se destacam no contexto da crise geopolítica, que podem gerar eventos desestabilizadores. O primeiro desafio reside em possíveis interrupções nas cadeias de suprimento do comércio internacional, podendo gerar gargalos logísticos, escassez de insumos, aumentos de custos e perda de competitividade, desencadeando uma busca intempestiva por novos fornecedores. Essa variável pode interferir na governança corporativa e na continuidade dos objetivos ESG.

O segundo desafio está no ambiente regulatório que sofre impactos com mudanças geopolíticas, podendo trazer um incremento do nacionalismo econômico, protecionista e mais intervencionista, que visaria mais as empresas transnacionais e sua governança. Esse cenário pode impactar as decisões e operação das empresas e consequentemente suas agendas ESG.

O terceiro risco é financeiro e cambial, uma vez que conflitos geopolíticos levam à volatilidade dos mercados de capitais, flutuação do valor das moedas e mudanças nas taxas de juros. São instabilidade que afetam as corporações e exigem decisões estratégicas que podem intervir na agenda social das empresas que estiverem envolvidas em cenários de crises humanitárias e violação de direitos humanos nos países onde estão sediadas.

Inúmeros estudos acadêmicos começam a se voltar ao tema e medir a exposição dos pilares ESG aos riscos geopolíticos. Uma pesquisa reunindo pesquisadores de vários países coletou e analisou dados de 42 mil empresas de 37 nacionalidades, no período de 2002 a 2022. Os pesquisadores apuraram que a resposta ESG aos níveis de riscos geopolíticos varia, sendo mais positiva para as companhias com mais maturidade nas práticas ESG

Já para os pesquisadores chineses, que analisaram dados de empresas chinesas listadas na Bolsa de Xangai, “a instabilidade política e os conflitos internacionais podem levar à redistribuição de recursos, afetando, assim, as estratégias e práticas ESG das empresas. Contudo, isso também oferece às empresas oportunidades para aprimorar o desempenho em ESG, especialmente nos casos em que as mudanças políticas impulsionam padrões ESG mais elevados”.

Outro estudo, publicado pelo prestigioso Journal of Environmental Management demonstra que os riscos geopolíticos sobre empresas comprometidas com o ESG são menos impactantes, porque elas apresentam maior resiliência em comparação a outras empresas sem esse foco.

O pesquisador lembra que os riscos geopolíticos estão interligados com os riscos ambientais, sociais, econômicos e tecnológicos: “Essas empresas [ESG] tendem a ter práticas robustas de gestão de riscos, cadeias de suprimentos diversificadas e foco na construção de relacionamentos sólidos com as partes interessadas. Como resultado, elas experimentam menor volatilidade em seu desempenho financeiro durante períodos de incerteza geopolítica”.

Como salvaguardar compromissos ESG diante dos riscos geopolíticos? Diferentemente dos riscos tradicionais, os geopolíticos são difíceis de prever e quantificar porque dependem de decisões políticas, eventos inesperados, alianças econômicas, impondo às corporações desafios multidimensionais, capacidade adaptativa, fortalecimento da governança e compromisso real com a sustentabilidade.