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Sonhos e terra, agroflorestas e casas de farinha

12/03/26

Nasci Ginelda Silva Lima em São Domingos do Capim, na região nordeste do Pará. Ainda criança, junto de minha mãe Raimunda Moreira dos Santos Silva, irmãos e irmãs, rumamos de canoa para Tomé-Açu (PA), em busca de dias melhores. Meu pai seguiu depois. Na infância, na beira do rio, não conhecia fronteiras. Ao chegar na cidade, o mundo pareceu se encolher, com suas cercas e limites.

Filha de agricultores, criada entre roçados e paneiros de farinha, comecei a estudar aos 13 anos de idade. Aos 14, casei e, aos 15, fui mãe. Me formei professora, cursei magistério. Mas meus planos e sonhos também envolviam a terra, o cultivo e a produção de alimentos saudáveis. Comida natural faz bom pensamento.

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Por 28 anos me dediquei à educação pública de Tomé-Açu. Como educadora, pude ensinar, mas sobretudo aprender com outras pessoas, outros rios e outras terras – inclusive as durezas que a falta dela traz. Em 2015, aos 44 anos, comprei meu pedaço de chão. Pequeno, mas com ele conquistei autonomia e tive dignidade para criar meus filhos e filhas. A terra é como uma mãe, ela sustenta e permite firmar e encontrar outras raízes.

Queria muito uma casa de farinha. A mandioca, essa raiz, tão resistente e nutritiva, é comida para casa e tem venda garantida. Com um grupo de mulheres, perseguimos esse sonho e a Casa foi construída no meu sítio, no ramal Itabocal, em Tomé-Açu. Com o apoio – talvez inusitado mas nada fortuito de André Doyon – benfeitor canadense que conheceu minha história por meio de uma palestra, fundei e trabalho na companhia de Maria Selma dos Santos, Domingas dos Santos Lopes, Fátima da Silva Moreira e Vanda Santos, a Casa de Farinha Quebec. Outras mulheres se unem a nós em tempos de maior demanda.

A mandioca e a macaxeira que servem de base para a farinha e outros derivados são, para mim, não apenas renda, mas alimento, conhecimento, preservação e produção de biodiversidade. Cultivadas em agroflorestas, elas são companhia para açaizeiros, andirobeiras, ipês, cacaueiros, cupuaçuzeiros, e outros vários pés de planta que, juntas, cuidam do solo, do ar e das fontes de água.

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Fazer agrofloresta, assim como fazer farinha, envolve mistura.

Uma agrofloresta exige conhecimento, trabalho e respeito ao tempo de crescimento das plantas. Requer cuidado com o solo e com as águas que, em chuva, são intensas no inverno e escassas no verão. Nesses plantios, diversas espécies vivem juntas para compor e recompor ecologias. Em coprodução, essas plantas crescem e reativam o solo, as águas e os ecossistemas. Com a floresta e outras agroflorestas, podem formar corredores, mantendo o espírito de companhia, cuidado e parceria. Resilientes e resistentes, as agroflorestas fazem vida e produzem diversidade.

Uma casa de farinha pode ser um braço da agrofloresta. O espaço tem o nome de casa não por acaso: é lar de afeto, compartilhamento e, deseja-se, segurança – algo que a casa de muitas mulheres deixa de representar. Em uma farinhada, abriga a comunidade, reforçando o caráter coletivo da produção de mandioca e outros derivados que vem desse alimento tão poderoso, versátil e saboroso.

Nesta casa, a mandioca é transformada. O processo de beneficiamento demanda reconhecer e selecionar manivas e raízes, saber o momento certo da colheita, o tempo de pubar, a grossura do ralar, o tempo de torrar, as formas de armazenar.

São diversas mãos que participam da transformação da mandioca em farinha, a companhia perfeita para o peixe assado e o corpo a engrossar o açaí – que também está na agrofloresta. Dela é feita a goma para a tapioca e o tucupi, que nutre pratos tão emblemáticos quanto o tacacá. Fornos, prensas, facas, raladores, peneiras e fogo são objetos parceiros desse trabalho e encontro de transformação.

Cada casa e, por que não, cada agrofloresta, pode produzir diferentes farinhas e derivados. Em comum, seu caráter coletivo e compósito.

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Casas de farinha e agroflorestas não cabem no singular. São várias as pessoas, instrumentos e microorganismos que fazem florescer sementes, árvores e alimentos. Mulheres amazônidas fazem além de casas, agroflorestas. Além da goma, manivas. Das sementes, mudas. Todas elas contam histórias de luta, de força e de trabalho coletivo.

Que possamos, cada vez mais, cultivar agroflorestas, fazer farinha, compartilhar a caminhada – e registrar essas histórias.

A floresta viva é feita de pessoas, e feita de mulheres. Neste março das mulheres, o compromisso das mulheres do IPAM é com a garantia do acesso à terra e com a conquista de autonomia das mulheres amazônidas. Mulheres e florestas vivas!