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Três fatores-chave nos relatórios ESG

30/03/26

Antes de ser visto como um desafio de difícil superação, os relatórios ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança) devem ser vistos como uma oportunidade que se abre para as organizações. A situação pode ser comparada ao conto do escritor indiano Salman Rushdie “Bom conselho é mais raro que rubis”, que trata da história de Rehana, uma jovem indiana, de poucos recursos,  até o consulado britânico para tentar obter o visto para  ingressar no Reino Unido, onde se casará com um homem mais velho, cuja mão foi prometida pela família dela há muito tempo.

Ela é abordada por um espertalhão, Muhammad Ali, que aponta dificuldades para vender facilidades para as mulheres indianas, especialmente as do interior, no sentido de “prover conselhos” (mais raros que rubis) para que obtenham seu visto. Encantado pela beleza da jovem, Muhammad acena até com a possibilidade de um passaporte falso, sendo rechaçado pela jovem, por um motivo que só será conhecido ao final do conto.[1]

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Assim como na ficção, não há nos relatórios ESG um “caminho mais curto ou mais fácil” dentro da complexidade regulatória para se chegar a um documento robusto. A empresa tem de se preparar para essas exigências normativas. As estruturas definidas pelos órgãos de conformidade para elaboração do relatório – no caso do Brasil de competência da Comissão de Valores Imobiliário (CVM) – exige a divulgação de riscos climáticos, impactos sociais e práticas de governança nas empresas, envolvendo muitos requisitos. Desses, três contribuem para os relatórios ESG serem mais robustos: dados confiáveis, participação dos stakeholders e emprego da materialidade dupla.

A complexidade da coleta de dados na esfera corporativa  está ligada ao fato de que levantar informações de múltiplas fontes é sempre intrincado, mas funciona como base para um relatório, desde que sejam confiáveis e rastreáveis. Caso contrário, ao final do mapeamento podem apresentar divergências ou falta de detalhamento necessário, sendo mais vinculados ao marketing do que à realidade. Isso ocorre por vários motivos, incluindo receber dados de fornecedores e parceiros negociais terceirizados, que apresentam documentação fraca ou sem transparência.

Mas o que são considerados dados fracos? Aqueles que estão desatualizados, incompletos, não foram verificados ou são inconsistentes com as normas, resultando em lacunas de conformidade. De acordo com a Gartner, empresa de pesquisa e consultoria, a baixa qualidade dos dados custa às organizações mais de US$ 12,9 milhões anuais. Mas como chegar a dados confiáveis? Certamente, evitando que haja correções apressadas de última hora, emprego de metodologia inconsistente, revisão incompleta e falta de interoperabilidade entre os sistemas da mesma empresa.

Atualmente, já se sabe que relatórios com baixa qualidade de informações implicam em riscos, uma vez que as empresas não estão cumprindo a regulamentação, além de comprometer o pilar financeiro porque os ativos se tornam superexpostos e o pilar da reputação, decorrente de possível prática greenwashing, identificada como sendo uma ação corporativa oportunista, pela qual a empresa divulga credenciais de sustentabilidade que não possui, ludibriando o interesse público. Sem transparência, não há governança. Sem governança, não há competitividade.

Nesse cálculo, o tempo deve ser visto como fundamental durante a coleta de dados confiáveis para os relatórios ESG. Quando começam tardiamente, o processo fica comprometido ao atropelar as etapas seguintes de validação; não sendo possível chegar a um relatório ESG confiável, podendo comprometer o resultado e a credibilidade do documento produzido.

Ao instituir uma rotina de fluxo de trabalho ao longo do ano, é fundamental que cada dado ESG coletado tenha o seu responsável identificado. Além disso, o levantamento deve ser contínuo nos diferentes setores para evitar atropelos e falhas de última hora. Deve haver a responsabilização de cada setor operacional no processo e validação com total transparência dos dados e interpretações das normas aplicáveis, com o intuito de se tornar escalável.

Outro ponto fundamental relativo aos dados estão concentrados na cadeia de fornecedores, uma vez que podem ter mau desempenho se empregam  trabalho infantil, promovem  salários indignos ou  incorrem em emissões de carbono de Escopo 3, que são todas emissões indiretas na cadeia de valor de uma corporação.

Elas representam a maior parte da pegada de carbono total das empresas, uma vez que as emissões de Escopo 1 (diretas) e de Escopo 2 (indiretas, como energia adquirida) são mais fáceis de mensurar. O Escopo 3, muitas vezes, envolve informações sobre cadeias de suprimentos globais, que trabalham geralmente com dados estimados, comprometendo resultados.

O segundo ponto para um relatório ESG robusto é o impacto dos stakeholders, sejam indivíduos ou grupos, afetados pelas atividades da empresa. O engajamento das partes interessadas não consiste simplesmente em coleta de opiniões, deve construir um diálogo eficaz, expressando uma abordagem mais profunda e capaz de entender as demandas das partes interessadas. Essa dinâmica propicia acesso a insights que passariam despercebidos, podem ser incorporados ao relatório. Portanto, ajudam a dar uma materialidade mais aprimorada e consistente aos documentos de sustentabilidade.

Quando os stakeholders têm participação ampliada em uma corporação isso implica em compromissos mais fortes entre as duas partes, que irão refletir no conceito de materialidade, legitimidade (no contexto da sustentabilidade significa que  a organização detém metas adequadas ou socialmente desejáveis) e credibilidade das práticas ESG, pois as partes interessadas reconhecem que estão devidamente representadas no relatório e que houve um empenho de adaptação da empresa às práticas ambientais, sociais e de governança em curso, demonstrando transparência e responsabilidade.

Neste processo, é fundamental que o engajamento das partes interessadas seja legítimo, autêntico, colaborativo, representando melhorias efetivas em termos sustentáveis para que a empresa não seja acusada de promover uma “incorporação frouxa” das demandas dos stakeholders e, portanto, de praticar greenwashing.

Nos relatórios ESG, as companhias também precisam atender aos requisitos de materialidade dupla, que ampliam o conceito da materialidade simples, com foco único no impacto financeiro – incluindo também o impacto de suas atividades no meio ambiente e na sociedade; possibilitando uma perspectiva externa, ou seja, uma visão do desempenho corporativo em relação ao planeta.

O conceito de dupla materialidade ampliou a responsabilidade dos relatórios ESG, tendo sido adotado por frameworks importantes como a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) da União Europeia e o Global Reporting Initiative (GRI). Tal exigência expandiu-se para as normativas de muitos países, inclusive do Brasil. A dupla materialidade consegue medir a materialidade externa e a interna das empresas, podendo avaliar e monitorar com mais efetividade os riscos e oportunidades envolvendo a sustentabilidade do negócio, a partir de uma visão holística.

A importância dos Relatórios ESG está crescendo à medida que ampliam as estruturas que interagem com esses documentos, sendo mais um fator de demanda por qualidade dos dados e consistência dos relatórios. A princípio, seriam apenas as entidades regulatórias e investidores os maiores interessados nesses documentos; mas esse público vem se ampliando, incluindo agências de classificação de risco, concorrentes, organizações não governamentais e mídia, dentre outros, exigindo que as informações sejam divulgadas no sentido que haja mais precisão e compromisso com uma comunicação eficiente e transparente.

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O relatório ESG, enquanto indicador da sustentabilidade da empresa, é um mecanismo claro de gestão. É uma ferramenta que transparece clareza para dentro e para fora da organização. Da porta pra fora, fortalece o relacionamento com stakeholders porque eles sabem onde buscar informações confiáveis; da porta pra dentro, organiza processos, estrutura a coleta de dados e estimula a melhoria contínua.

Por isso mesmo, relatório não é literatura. Ele é um documento de consulta, organizado e acessível. Serve para que investidores, conselheiros e parceiros encontrem rapidamente o que precisam. E quando pensamos nisso, entendemos que relatório não é apenas um peso burocrático. Ele é um ciclo virtuoso: coleta de dados, análise, comunicação. E isso melhora a gestão, reduz retrabalho, diminui a carga administrativa e ainda gera valor.


[1] RUSHDIE, Salman. Oriente, Ocidente. São Paulo:Companhia das Letras,2011,p.10-19